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Cyro Pimentel: o esfacelamento de sua biblioteca.

     Em certos momentos não sei em que lugar vivo pelo que fazem da nossa Cultura os governantes e os intelectuais do Estado e da cidade de São Paulo.

     Triste estou com uma situação por mim presenciada: a venda em leilão da biblioteca, com enorme acervo de livros de Poesia autografados e outras obras, que pertenceu ao poeta paulistano Cyro Pimentel, falecido no dia 7 de fevereiro de 2008; considerado um grande nome da Geração dos poetas de 45 e, certamente, junto com Domingos Carvalho da Silva, Péricles Eugênio da Silva Ramos e Geraldo Pinto Rodrigues, um dos maiores poetas do meu Estado na 2ª metade do Século XX.

      Leia uma pequena biografia de Cyro Pimentel que encontrei na internet:

“O poeta e diretor da Associação Paulista de Letras (APL) Cyro Pimentel morreu em São Paulo, no último dia 7, aos 82 anos. Formado em contabilidade, iniciou sua carreira literária em 1940, integrando a geração da qual faziam parte Sérgio Milliet, Ida Laura e Paulo Bomfim. Em 1948, participou da Exposição de Poesia Ilustrada no Clube dos Artistas. A seguir, publicou seu primeiro livro, Poemas, e colaborou em revistas como a Cadernos, ao lado de Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Participou, ainda, da fundação da Revista de Poesia e Crítica. Publicou, ao longo de sua carreira, obras como Espelho de Cinzas e Signo Terrestre.(...).” (Texto de Neto de Sinharinha Pimentel):

http://www.ihggi.org.br/conteudo/acervo/mostra_noticia.php?idNoticia=1

     Veja como descobri a venda da biblioteca (acervo) de livros que pertenceram ao Poeta Cyro Pimentel:

     Estava eu na minha habitual corrida aos sebos do Centro de minha cidade: São Paulo e ao adentrar no sebo mais conhecido daqui fui, como sempre faço, até a sessão de Poesias e vi uma pilha de livros deixados no chão para serem colocados na estante. Peguei um banquinho, sentei e comecei a folheá-los; descobri que a maioria dos livros está autografada e para o poeta Cyro Pimentel.

     Curioso como sou, busquei maiores informações do poeta na net e encontrei um valioso artigo do poeta concreto: Augusto de Campos, escrito após a morte de Cyro, que fala de sua Poesia, mostra alguns de seus poemas e relata fatos, como a amizade de ambos no início de suas trajetórias poéticas, a distância ocorrida com o passar dos anos, por caminhos poéticos distintos, e a reaproximação, através da publicação do livro Poesias, em 1989, do poeta simbolista Ernâni Rosas (1886 - 1955) - comemorativo do centenário de seu nascimento. Obra que tem a compilação de parte de seus poemas. Este livro, Augusto de Campos foi levar pessoalmente na casa de Cyro Pimentel em 1990.

     Ernâni Rosas é um poeta resgatado, lido e compreendido, valorizado e estudado pela crítica literária atual e filho de outro poeta simbolista, Oscar Rosas, este, amigo de Cruz e Sousa.  Para Augusto de Campos, Cyro Pimentel é um caso parecido com o de Ernâni Rosas. Será resgatado, lido e compreendido, valorizado e estudado em um tempo futuro de nossa história literária.

Leia o texto em:

http://www.cronopios.com.br/site/critica.asp?id=3290

      É um texto maravilhoso! Nele aprendi o valor literário da Poesia de Cyro Pimentel.

     Para Augusto de Campos, a obra de Cyro Pimentel: “constituiu um caso único de poesia moderna pós-simbolista, dissonante e abstrata, ainda mal compreendido e avaliado entre nós.”

     Pertenceu o poeta, inicialmente, ao Clube de Poesia que editou por mais de 30 anos muitos dos principais poetas daqui do Estado de São Paulo, como por exemplo: Domingos Carvalho da Silva, Geraldo Pinto Rodrigues, Renata Pallotini e o próprio Cyro Pimentel. Posteriormente entrou para a Academia Paulista de Letras onde era um dos diretores da entidade.

    Veja a notícia de sua morte: (retirada do Diário Catarinense - On-line):

http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a1760493.xml&template=3916.dwt&edition=9264&section=851

“Morreu, ontem, na Capital paulista, no Instituto do Coração (Incor), o poeta Cyro Pimentel, diretor e imortal da Academia Paulista de Letras. Cyro Pimentel tinha 82 anos. Deixou a viúva Amélia Mello Pimentel, quatro filhos, genros, nora, 10 netos e uma bisneta. Formado em Contabilidade, foi diretor financeiro do Hospital das Clínicas de São Paulo. Pertenceu à Geração de 1945, ao lado de outros poetas imortais. Publicou sete livros e foi eleito membro titular da Academia Paulista de Letras em abril de 1986. Cyro Pimentel foi o primeiro poeta honorífico do país. Homem de índole incontestável e ética exemplar, deixou como seu maior legado o amor à família e a necessidade de fazer o que é certo.
Cyro Pimentel - Poeta”

     Mais um tanto de pesquisa no google e descubro que houve um leilão para vender sua biblioteca (acervo), veja a notícia (retirada do Caderno de Cultura do Estadão On-line):

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101120/not_imp642488,0.php

“LEILÃO
Os livros de Cyro Pimentel
Interessados no leilão de itens do acervo pessoal do poeta Cyro Pimentel, que ocorre no próximo sábado, conforme noticiado pela coluna na semana passada, podem contatar o leiloeiro José Luiz Garaldi pelos telefones (0--11) 3257-4362 e 3283-3635 ou pelo e-mail livrariasereia@uol.com.br.”

     Na minha curiosidade habitual entro na página on-line do sebo que vi os livros no chão e encontro, agora, uma quantidade incalculável de livros autografados para Cyro Pimentel. São livros que percorrem os últimos 60 anos da Poesia brasileira, com os nomes mais expressivos de nossa Poesia nesse período sendo vendidos na loja virtual, esfacelando-se assim, em unidades independentes, toda uma história de Vida poética de um grande homem das Letras e a história da Poesia brasileira, através de relacionamentos literários, de um de seus  principais poetas, dos anos 50 para cá.

     Juntos, estes livros formariam um grande panorama da Poesia moderna brasileira dos últimos 60 anos, e são vendidos, aleatoriamente, pelo livreiro, pouco familiarizado com o material que adquiriu. Seria de inestimável valor, termos estas obras guardadas em uma biblioteca pública, para a leitura e estudo da Poesia brasileira moderna. E por que não uma Biblioteca pública com o nome de Cyro Pimentel.

     Jorge de Lima, Anderson Braga Horta, Tasso da Silveira, Marly de Oliveira, Joanyr de Oliveira, Fernando Py, Alphonsus de Guimaraes Filho, Alberto da Costa e Silva, Dora Ferreira da Silva, Idelma Ribeiro de Faria, Marcus Acioly, Renata Pallotini, José Paulo Moreira da Fonseca, José Alcides Pinto, Waldemar Lopes, Neide Archanjo, Francisco Carvalho, Gilberto Mendonça Teles, Mário da Silva Brito, Raquel Naveira, o próprio Augusto de Campos, me lembrei destes agora, e vários outros, todos autografados!

     Onde estavam os homens da Cultura do meu Estado de São Paulo? E os do Município? Os governantes, os intelectuais, os membros da Academia Paulista de Letras que não impediram a venda para um sebo da biblioteca (acervo) do poeta Cyro Pimentel? São muitos livros em que o poeta esteve presente na noite de autógrafos. Temos toda uma rede de relações: social, cultural e literária, por detrás desses autógrafos, onde Cyro Pimentel foi ao encontro dos poetas lançando seus livros e adquiriu um exemplar autografado.

     Claro que teremos muitos casos em que o poeta recebeu o livro em casa - suponho esta possibilidade, porque temos junto do autógrafo, em muitos casos, o endereço do autor do livro autografado - devia haver o costume, muito saudável, dos poetas de sua geração, quando da publicação de um livro, de enviá-lo à outros poetas, não presentes na noite de autógrafo, pelo correio.

     Não podemos exigir que herdeiros queiram preservar a memória de seus antepassados. Nem sabemos o motivo da venda da biblioteca (acervo) do ilustre poeta, talvez, motivo financeiro ou “ocupando espaço” em alguma residência herdada (troca de importância de valores - material acima do cultural, comum na Educação obtida na sociedade capitalista); todavia com a informação do leilão circulando até no Estadão On-line, não se justifica um livreiro vencer o leilão pela compra desse acervo. Em um Estado civilizado o leilão sequer ocorreria, seria sustado, não é verdade, amigos e amigas recantistas?

     Nenhum amigo, poeta, literato, intelectual íntimo de Cyro Pimentel ou qualquer membro da Academia Paulista de Letras teve a ideia de contatar os familiares do poeta, para dar a destinação correta desse acervo e garantir à geração atual e futura de leitores de Poesia o contato integralizado com esses livros?

     Qual a função da Casa das Rosas, nessas horas? Local em São Paulo, que diz ser um centro irradiador da Poesia paulista e brasileira? Ela tem até como homenageados principais os irmãos Campos, um deles o Augusto, que tão belamente  falou em seu artigo sobre a Poesia de Cyro Pimentel.

      Deixo uma reflexão:
     
   Será que não existe muito mais uma costumeira necessidade de olhar  para dentro, para a projeção individual no cenário cultural, na maioria das pessoas que escrevem ou debatem Literatura em nosso Estado de São Paulo? Esquecendo de preservar o nosso patrimônio cultural, como é o caso da vida e obra e do acervo pessoal do grande poeta Cyro Pimentel?

     Enfim,

     Tomara que não aconteça o mesmo numa próxima vez, quando do falecimento de algum expoente da Cultura Paulista.  Que as autoridades culturais do meu Estado e do município de São Paulo, onde nasceu e viveu o poeta Cyro Pimentel, possam encontrar mecanismos de proteção contra a dilapidação desses patrimônios literários e histórico-culturais. É muito dolorido não ter condições financeiras de trazer todos esses livros para casa!

     Abraços,

     Galera querida,

     Alexandre!

   

   

     
Alexandre Tambelli
Enviado por Alexandre Tambelli em 24/05/2011
Reeditado em 23/09/2011
Código do texto: T2989821
Classificação de conteúdo: seguro

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