FUXICOS DE FIM DE TARDE...

Ao cair da tarde, os ventos nos trazem os fuxicos do dia todo. Os rumores, as conversas de boteco, as fofocas de comadres. As informações de manicure, os romances de colégio, as críticas sobre o tédio, traz, de tudo, o que mais interessa. Os gols do flamengo e as músicas dos bêbados da praça, o sino da igreja, a paquera, as luzes da cidade, a busca por um dengo, e o alento de quem larga a enxada e pode matar a sede com um gole de cachaça.

No cantar das árvores, um dueto da folha com a brisa, macia, como a mão das Marianas, das Rosinhas, das Alines, das Raquéis, das Tamires, de todas que aguardam seus homens das guerras do campo, com a pele queimada, com as mãos cortadas, suas peles suadas, pretas de carvão, o corpo fedendo, de sovaco e de cachaça, que elas tratam com carinho, que velam pelo pouco de alento que eles podem lhes dar. No conforto da cama macia, com juras de amor e gemidos, fazem valer todo aquele dia de sacrifício.

Como palavras silenciosas, que mais calam do que dizem. De tudo um pouco, do não e do sim, da coisa boa e da ruim, da macaxeira que no sul é aipim, da terra seca que no inverno não é assim, da fava, da pinha, do andu, do gerimum, da cana, do côco, da manga e do milho. São ditas nos olhos, da felicidade da gente simples, uma alegria tão passageira e tão medrosa, que, mesmo assim tem coragem de enfrentar.

Que consome por dentro, e, ao mesmo tempo, nos ensina o que é viver.

Seja pelo canto das paredes varrendo a poeira, seja pelo terreiro da casa juntando os ciscos, os fuxicos de fim de tarde sempre fazem bem a quem ouve. Faz a gente ser mais gente, faz o novo ser mais novo, e quem não é gente e quem não é novo, tem a oportunidade de tentar ser. No assovio tranqüilo das algarobas e craibeiras, na vontade nossa de dizer besteira, o tempo se passa, como se passa o fim da tarde.

E traz sonhos tão profundos que fazem até medo sonhar, traz a promessa do dia seguinte, a ressaca do que passou, traz um querer perdoar, o fim de mais uma luta, faz de um peito, o recosto d’outra nuca, traz a vontade de amar...

Graciliano Tolentino

31-08-2011

Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 31/08/2011
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