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Medo da violência em mim

"Tenho medo da violencia que há em mim...
contrapõe ou é resquícios da minha humanidade?"





Essa semana assisti o filme de 1971 do diretor Sam Peckinpah, "Sob o domínio do medo".
No filme, Dustin Hoffman vive um homem pacato, casado com uma mulher com tendências exibicionistas, vivida pela linda Susan George. O casal sai da cidade grande, para passar uns dias de paz em um sítio no interior da Inglaterra. Chegando lá, Amy (Susan) começa a flertar discretamente com alguns habitantes locais. Não tarda para que os problemas se iniciem na vida de David (Hoffman) e ele tenha que deixar despertar seu lado bestial e selvagem, numa tentativa de manter a honra de sua família.

Quando terminei de assistir o filme, passei da sensação de desconforto, vergonha e horror para a de alivio.
Durante um único filme, lhe é proposto três tipos de violência: a física, a psicológica, e a sexual. E tudo o que eu queria era cobrar uma atitude logo, de algum personagem do filme.

Lembro, que quando acabou um dos meus comentários, foi: "Ainda bem que nosso mundo mudou!"
Foi uma análise preciptada.





"Violência é um comportamento que causa intencionalmente dano
ou intimidação moral a outra pessoa, ser vivo ou dano
a quaisquer objetos. Tal comportamento pode invadir a autonomia,
integridade física ou psicológica e mesmo a vida de outro.
É o uso excessivo de força, além do necessário ou esperado."
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.



Vi depois algumas críticas ao filme, achei todas interessantes, desde pessoas adorando a obra, como se a mesma fosse um retrato fiel da alma humana, até o oposto, pessoas odiando o filme, pelo o que elas acreditam que o filme conclui: que todo ser humano tem um potencial violento.

Eu gostei, depois que passou o choque. Gostei pelo o que se presta o filme, que é de ser filme, e arte. E de mexer com a gente, de entrar na nossa mente e bagunçar, e te fazer perguntas. Ele é abusivo, então não recomendo para quem não gosta de cenas fortes.

É interessante e tem bastante conteúdo para discutir, mas é apenas um filme.

O que me trouxe até aqui foi outro acontecimento, na verdade.

Esteve circulando nas redes sociais um vídeo chocante e violento. Uma mulher que espanca, supostamente até a morte um cachorro da raça yorshire, na frente de uma criança de aproximadamente três anos de idade.


São cenas fortes, e extremamente desagradáveis. E que gerou muito protesto e revoltas, e xingamentos e desejos nefastos contra ela. Foi divulgado seu nome, seu endereço e sua profissão.

O que me levou a ligar esses dois acontecimentos? Agora tem um pouco de spoilers...
No filme de Sam Peckinpah, há o desaparecimento de uma moça e um grupo de homens cheio de ódio já têm um culpado, e o querem a qualquer custo, para fazerem justiça com as próprias mãos.

Eles rodeiam a casa, onde o susposto criminoso se encontra e com violência tentam resgatá-lo, é nesse momento que se desenrola todo o desfecho do filme. E se passa grande parte da violência.

Quando o filme acabou, e eu tive aquela sensação de alívio, e me ocorreu: "ainda bem que nosso mundo mudou." Na verdade eu estava pensando, que essa brutalidade não existia mais, ou era menos possível ou menos tolerável. Essa coisa de "resolver com as próprias mãos."
Pra mim, a modernidade, a nossa "civilidade" está justamente nisso, nesse controle da violência.
De fato, o homem era responsável pelo desaparecimento da moça, e até mesmo por sua morte, mas a quem cabia julgá-lo e condená-lo?

A minha resposta natural, seria: numa sociedade moderna civilizada, a justiça.

E então, diante desse vídeo extremamente violento, vejo se formar diante dessa mulher, que já até admitiu o crime, um verdadeiro círculo de pessoas gritando horrores e talvez com tochas acesas, pedindo sua cabeça. É claro, muitos só querem que ela responda por um crime judicialmente, mas em muitos manifestantes, vi ali, uma violência, que na verdade, não consegui distinguir daquela antiga, daquela do filme.

Estão todos movidos por um estopim, por assim dizer, por uma violência inicial.
Numas das críticas que vi sobre o filme, há uma leitura (que eu acho um pouco exagerada, mas serve para reflexão)  mais ou menos assim: "então o filme propõe que todo ser humano é potencialmente violento?! E termina concluindo que então, toda a nossa sociedade é um caos."
Quer dizer, um matemático culto não tem direito de expor violência? De perder a cabeça? Em um lugar, onde não se pode chamar a polícia, e você tem um ideal a defender, até que ponto você pode ir para defendê-lo? É aceitável matar, para defender sua vida?

E essa mulher, o que a levou a agir com tanta violência? De onde surge esse potencial de destruição? Ela mesma admitiu que o cachorro dava muito trabalho, mas ela poderia tê-lo doado a outras pessoas. Quer dizer, naquele momento algo explodiu nela. Não se espera que, como mãe e enfermeira, ela seja assim, violenta, o tempo todo. O que houve, então? É seu potencial inato?
E tantos outros exemplos de violência que acontece o tempo todo por aí.
Num outro exemplo recente, a morte de Amir Kadafi, que chocou tanto. E era um outro contexto, uma outra violência, um outro estopim.
E muito outros exemplos, exemplos domésticos, nas favelas, no trânsito, sexual...

Pesquisando um pouco sobre o assunto, vi que Einstein e Freud também discutiam isso, e em uma de suas cartas, Einstein questiona Freud, sobre se ele acredita que a humanidade deixaria de ser violenta, a preocupação deles, era com as guerras, ao que Freud respondeu: "Em todo caso, como o senhor mesmo observou, não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desviá-los num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra."

Não vou negar que ao ver o vídeo, senti repudio, nojo, e até mesmo ódio dessa mulher. O que isso diz sobre mim? Queria respostas rápidas e saber exatamente o quanto ela pagaria por aquilo. Sob o meu olhar de justiça, ela deveria pagar.

Por fim, não tenho a pretensão de concluir se a violência é inata e definidora do ser humano ou não, minha questão era apenas a observação dos fatos, que para mim pareceram tão semelhantes. E depois, ainda bem, que estamos em épocas que podemos contar com a justiça para julgar apropriadamente e condenar, de acordo com as expectativas da sociedade... Com algumas falhas.


"Civilização é um complexo conceito da antropologia e história.
 Numa perspectiva evolucionista é o estágio mais
avançado de determinada sociedade humana, caracterizada
 basicamente pela sua fixação ao solo mediante construção
de cidades, daí derivar do latim civita que
designa cidade e civile (civil) o seu habitante."
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Revisado por: Angelo R. Paschoaleto
Jule Santos
Enviado por Jule Santos em 18/12/2011
Reeditado em 18/12/2011
Código do texto: T3395052

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Sobre a autora
Jule Santos
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil, 34 anos
234 textos (14683 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/09/21 08:56)
Jule Santos