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Marionetes

     O mundo é dos fracos e de alguns, bem alguns, fortes. Evidentemente não me refiro à força física, mas à força de caráter, artigo de luxo nos dias de hoje. A covardia é tão evidente que muitos tapetes são necessários para escondê-la. Só os muito covardes tem vergonha dela.
     A covardia é uma espécie de se sinal de Caim que poucos conseguem ver. No trabalho, por exemplo. Quando nos calamos diante das arbitrariedades, e consentimos que elas se perpetuem quando não somos o alvo, isso é covardia. Mas conseguimos transformar nossa torpe omissão numa virtude: temos uma família para cuidar. Por ela, engoliremos todos os sapos, todas as cobras, todos os lagartos. E vamos para casa como heróis em busca do justo descanso. Vamos para os braços de nossas Helenas pouco importando os braços decepados que deixamos pelos caminhos. Outras Helenas que chorem. Guerra é guerra. Farinha é pouca meu pirão primeiro. O mundo é dos espertos. Essa torre de babel nos convém. Se eu não compreendo o outro, posso tirar disso uma vantagem. Caso alguma sentença ruim recaia sobre ele, o que poderei fazer se não falo a sua língua? Dormirei em paz, cinicamente em paz.
     O fraco é um forte perante os seus. É quase um Teseu enfrentando labirintos e minotauros terríveis. A isso chamam o dia-a-dia. Quando retornam a seus remansos, relatam seu dia a atentas esposas. Dia difícil, cheio de problemas, mas enfim, o lar. As vilezas do dia, naturalmente, escondem-nas. E trocam de assunto. Elaboram projetos com os juros da submissão abjeta. São felizes porque a felicidade tem um preço, e não é barato não.


                                                          Aldo Guerra
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 12/01/2012
Código do texto: T3437478

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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
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Aldo Guerra