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Se cuida, Otelo!

     Estou cego do olho esquerdo. Mas não faz mal. De Camões, herdarei o tapa-olho sem pretender-lhe o talento, é claro. A visão monocular restringe o mundo, mas não o diminui por isso. O mundo continua do mesmo tamanho e com os mesmos problemas. Eu é que encolhi um pouco e, andando sozinho pelas ruas, posso ter gratas surpresas ou sérios tropeços. Mas tá valendo. Passei do tempo de achar que a vida é essa coisa toda. No entanto, conservo com ela o meu maior prazer: ser professor. É a única roupa que me cai bem. Com ela, tentei mostrar que aqueles tênis que os alunos usavam, e cujo preço ultrapassava o que milhões de pessoas tem como salário, não era culpa deles, mas era inverossímel. Era preciso que eles soubessem, concordassem ou não com isso, que a vida se costura de viés e acomoda as pessoas em escaninhos bem definidos. Como se diz, a tempestade para muitos é a bonança para alguns.
     Quando o mundo nasceu, a inveja já era o sentimento dos que queriam ascender. A inveja é a mãe do puxa-saco. E todos sabem como são as mães quando se trata de proteção. São monolíticas ainda que seus rebentos não tenham caráter nenhum. Eles nascem, crescem, andam como todos os mortais. E não percebendo a sombra de Mefistófeles, bebem água de moringa alheia, ouvem o canto das sereias e se deixam picar pela mosca quase azul, seu anátema. E digo quase porque ele não será o rei, mas o bufão. No entanto, o rei deverá ter cuidado, pois dependendo da mosca, ele poderá se tornar um Iago.

                                                          Aldo Guerra
     
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 12/01/2012
Código do texto: T3437558

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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
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Aldo Guerra