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(IN)DISCRIÇÃO DE "AMIGA"

"DA DISCRIÇÃO
Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...
Mario Quintana - Espelho Mágico "


          Eu não me emendo. Tenho plena e total consciência disto e já entro logo na história aqui me penitenciando. Vou mexer onde não devo e tem gente que não vai gostar. Deus que me defenda, então...O telefone toca e uma – chamemos amiga, por falta de outro termo mais próprio – depois dos blá blá blás iniciais de toda conversa telefônica se põe a contar o “causo” mais recente acontecido em sua turbulenta vidinha. A moça, que dispõe de inúmeros – aí vou eu de novo – amigos e, no caso dela todos íntimos e amantíssimos (coisa que, ursa que sou, não consigo compreender), está aos prantos pela mais recente faca nas costas que tomara de uma delas. 

          Muitos “snifs” e barulhos de nariz assoando do outro lado, entre prantos e barrancos (melhor dizer barracos?) conta a triste história. Não sou boa em reproduzir diálogos e minha memória, que anda pior que hd de 286 (se isso existe) também não seria capaz de lembrar todos os detalhes. Tudo o que me vem é a frase repetida entremeando cada pedaço da história: “Eu devia ter te escutado. Você é que tem razão.”. Confesso – e novamente é culpa da minha vaga lembrança das coisas – que não sabia dizer em que eu estava com a razão. Em primeiro lugar, porque não conheço nem me recordo de algum dia ter conhecido qualquer dos envolvidos na novela, a não ser a dita cuja que me telefonara. Depois, sei lá o que possa eu ter dito em algum momento que me fizesse proprietária da razão e da verdade, coisa de que não faço a menor questão. Posso até dizer o que penso, mas não me faz diferença se o outro acha certo, errado, verdade ou não. Penso e ponto. E se disse, é porque me foi perguntado. 

          Vou escutando o desenrolar da novela toda até descobrir o “x’ da questão, o motivo da desandada choradeira: a moça cometeu alguma inconfidência a uma outra amiga que, por sua vez, passou a bola pra outra amiga (evidentemente incrementada com algum temperinho extra pra dar ares de sabedora de detalhes) e esta a outra e assim por diante. O resultado: a história, que no começo era um folhetim de pequenas proporções virou uma tragédia grega de quinhentas páginas, com direito a detalhes escabrosos que a pobre nem nunca sequer imaginara. Foi aí que achei minha razão. Em vários momentos em que tentara me contar alguma coisa, essa que vos fala achou melhor mudar o rumo da prosa pra receita culinária ou outra coisa qualquer mais banalzinha pra ficar livre do encargo de sabedora do que quer que fosse. Não me comprometa. E, só pra ajudar a explicar o meu procedimento ia na base do “quem conta um conto, aumenta um ponto”. 

          Devoradora que sou dos livros do José Ângelo Gaiarsa, psicanalista para quem, a fofoca é a raiz de, se não todos, pelo menos da maioria dos males sociais, aprendi que é melhor estar mal informada do que informada demais. Dia vem que você se distrai e sem querer (em alguns casos, querendo sem saber) comete a indiscrição e solta o “segredinho” que, na maioria dos casos, nem é tão secreto. Mas aí, a coisa já cresceu e você vira a mentora intelectual da traição. 

          Tá certo, seu Quintana. Completamente correto. O teu amigo tem outro amigo. E este, bem ... terá uma centena. E os que entendem de matemática sabem bem onde isso vai parar.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 12/01/2007
Código do texto: T344975

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 56 anos
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Débora Denadai