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Retrato (Crônica para minha mãe)

Olhando o retrato de minha mãe, uma foto tão humilde que o tempo se encaregou de amarelar, o pensamento vagueia na imensa saudade que me domina.
O vento passa e move seu vestido, os braços pendentes ao longo do corpo tão frágil e maltratado pelas intempéries da vida. Quantos sonhos acalentados na juventude...
O sonho do casamento e o despertar tão brusco para uma vida dura, árdua, pontilhada de renúncias e abnegação. A espera do companheiro que em tantas viagens se perdia no tempo, por que se demorava tanto?
A saudade, a solidão, noites vazias, o desamor, soluços... uma implosão de sentimentos tão sublimes e tão amargurados.
A lua prateava a solidão do agreste, contrastando com o vazio de seu coração.
Sentada na varanda da velha casa, olhar perdido na última curva da estrada, na expectativa de vislumbrar um resquício de poeira, anunciando a chegada de alguém tão esperado, mas tudo isso não passava de uma miragem enganosa e apenas o pio de uma ave noturna quebrava o silêncio reinante. Longas baforadas de um cachimbo ganhavam o ar em sinuosas coreografias, longas e ritmadas como o aceno de um adeus. Uma lágrima teimosa certamente brotava desse olhar doce e sofrido.
Os dias, na esperança de um só dia feliz, passavam, secos como a caatinga do sertão, em dias de estio. Depois, a mudança para terras distantes...
Relutante, deixa a terra natal, a fazenda, os pais. Leva consigo poucos pertences e os filhos, uma prole numerosa.
Novas terras, novos rumos, novos sofrimentos e a mesma solidão.
Hoje, quando a doce sinfonia da saudade vem dedilhar as cordas mais íntimas de meu coração, eu a revejo na igreja, mãos postas e olhar perdido entre as coisas do alto e concordo com o poeta que já dissera... "era uma santa escutando o que outra santa dizia"....
Hoje voce não está mais entre os viventes, partiu para onde partem as almas abnegadas e humildes, aquelas que souberam ser grandes diante de sua própria pequenez.
Mãe, o tempo, esse juiz inexorável também passou por mim, ja não tenho o rosto de outrora, o semblante também mudou,
uma linha no rosto, uma sombra no olhar, uma certa tristeza em tudo, somatório de uma vida inteira.
Mãe, voce tão longe e tão perto e esta minha saudade tão antiga como uma canção de ninar.
 "Se esta rua fosse minha
  Eu mandava ladrilhar
  Com pedrinhas de brilhantes
  Só prá ver voce voltar".
Deusinha
Enviado por Deusinha em 18/01/2007
Código do texto: T351283

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Sobre a autora
Deusinha
Uberlândia - Minas Gerais - Brasil, 73 anos
32 textos (1364 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/09/20 00:00)