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Anselmo

- Por que você me bate, Isaura?

- Porque você merece, seu traste!

E assim era todo o dia, ou quase. Anselmo era sovado cruelmente pela esposa. Levava inicialmente tapas. Como se fosse seu dejejum. Na hora do almoço, depois de satisfeitas as costelas, ganhava de sobremesa um puxão no cabelo. Dormia ninado por uns
chacoalhões violentos. Era assim todo o dia, ou quase.

Anselmo não protestava, de início, com as agressões físicas. Apanhava como macho, calado e hirto. Entretanto, veja bem, as
agressões ditas eram menos toleradas. Quando xingado ele abria a boca e respondia a altura.

- Seu vagabundo! Filho da puta!

- Cala a boca, maluca. Puta é...

E um tapa lhe devolvia a fria mudez do homem que apanha, mas apanha como macho, uma muralha. Raramente chorava. E talvez só o
fizesse tentando ferir Isaura. Assim como gostava de mostrar um hematoma ou outro, querendo que ela sentisse remorso, ou sei
lá. Quando tinha um olho roxo trazia a cabeça empinada. Sempre deixando o perfil ferido voltado para a esposa. Esta, nem via
sua cara marcada. A não ser quando dava um reforço no roxo da cara do marido.

- Não está satisfeito, né? Então toma!

Anselmo sabia que Isaura não batia nas crianças. Talvez até valesse a pena se enganar pensando que apanhava a fim de livrar
meninos da fúria da mãe. Se ele não levasse os tapas e chacoalhões os meninos seriam os alvos preferenciais. Melhor ele
levar, já que era homem, e aguentava. Havia também um acordo tácito de nunca bater ou apanhar na frente dos meninos. Claro
que estes sabiam de tudo. E já consideravam tão natural que não conseguiriam entender os pais sem essa relação de socos e empurrões. Talvez eles desejassem já o pai sendo surrado, já que essa era a condição de tê-lo por perto.

- Isaura, acho que quebrei uma costela... - Não teria sido a primeira vez. Já quebrara um dos braços. Pontos, muitos...

- Bem feito seu vagabundo!

- Sério, Isaura. Acho que está quebrada.

- Levanta do chão, seu verme. Deixa eu ver.

E deu um tapa nas costelas de Anselmo, que engoliu um urro, e foi sentar na cadeira.

- Vagabundo! Seu merda! Traste! Seu canalha!

- Sua doida! Pare agora ou vai ver!

- Vou ver o que? Canalha! - E deitou a mão com tanta força que Anselmo caiu da cadeira.

Ele se ergueu solene. E sentou novamente na cadeira.

- Seu merda! - Isaura foi dormir. Anselmo por gelo nas costelas.

Apenas uma vez levantou a mão para Isaura. Colérico, depois de descobrir que não havia comida para ele de novo, e que ia jantar mais uma vez pão e café frio. Gritou, puxando do fundo de seu ser cada átomo de raiva. Agarrou Isaura pelos ombros e tentou sacudir a mulher, em frenesi. De início ela ficou embasbacada. No instante seguinte se recuperou do susto e num movimento de braço afastou o marido. Passou a mão na vassoura e quebrou-lhe o cabo no crânio. Cortou.

Esta foi a única vez que Anselmo encostou em Isaura.

A casamento deles durou anos. Mas nada mais natural que a viuvez chegasse para Isaura. O mais triste foi ter suportado tantas
agressões para no fim morrer de ataque cardíaco aos quarenta e nove anos. No enterro Isaura estava impaciente, carrancuda. Queria ver logo enterrado aquele homem que tanto atrapalhara sua vida. Que lhe havia privado de tudo. Era como se uma âncora que se desprendia e afundava no oceano.

- Vem mãe. - Um dos filhos chamou a mãe.

- Tô indo, filho. Vamos enterrar agora?

- Sim. - E saíram do velório.

No caixão o corpo de Anselmo Ainda lanhado de tanto apanhar.
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 28/02/2012
Código do texto: T3524865
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 40 anos
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Guilherme Drumond