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O Pirarucu e A Multiplicação dos Peixes

                                                                                                 


Noutro dia, o biólogo e consultor Ricardo Tsukamoto falava-nos sobre o milagre do pirarucu, aquele peixe enorme que vive nos rios brasileiros, que quase não se move e pode ser criado em pequenas áreas e resolver o problema da fome gorda neste país de tantos contrastes. Lembrei-me de um médico paraense que conheci em noventa e oito em Londres que me disse que em sua terra ninguém morria de fome, tamanha a quantidade de peixes naquele Brasil longínquo, um verdadeiro milagre da realidade.
Tais lembranças levaram-me a uma leitura muito antiga, um texto escrito há quase oitenta anos e que dava uma interpretação singular à lenda da multiplicação dos pães e dos peixes que teriam saciado a fome de cinco mil pessoas.
O texto dizia que a passagem nunca fora entendida nem tampouco explicada com clareza. Não seria a fome física o ponto central da questão, senão a espiritual. E que os assistentes mais próximos da preleção teriam insinuado ao orador que as pessoas estavam com fome e o sermão deveria ser interrompido, ao que o orador teria respondido que o pão do trigo alimentava uma fome passageira, mas que o pão espiritual de seus ensinamentos representava um auxilio continuado, não para uma fome circunstancial, mas que pudesse saciar uma fome secular de espíritos ávidos por conhecimentos.
Tais reflexões nos levaram a considerar que, pela abundância de peixes e escassez de conhecimentos, a fome física não deveria ser mais que uma conseqüência da fome espiritual. E que deveríamos lutar pela educação de nosso povo e de todos os povos, e não somente a convencional, a que se aprende nos bancos escolares, senão a outra, a espiritual, a humana, que deve nos levar a conviver pacificamente com nossos irmãos, os outros seres humanos, e a nos conhecer, e a nos entender como entidades que podem ser muito inteligentes se nos desprendermos de preconceitos seculares que nos têm feito ser os agentes de guerras e desentendimentos, criadores de partidos que partem as relações humanas numa fingida convivência que tudo destrói.
O divisionismo só existe na ignorância que é a ausência de inteligência, ou seja, da capacidade de conviver harmonicamente com os semelhantes.
O famoso oráculo de Delfos, magnífica construção assentada às encostas do monte Parnaso, ostentava em sua fachada a enigmática inscrição celebrizada por Sócrates cujo significado permanece obscuro até hoje: conhece a ti mesmo. Para lá se dirigia o viajante sedento de conhecimento levando suas inquietações e questionamentos ao deus Apolo, o deus do sol e da luz, da música e da purificação, da tranqüilidade, da beleza, o que conheceria a medida das coisas.
Dionísio (Baco para os romanos), o deus do vinho, da festa e do teatro, cujo culto era o das necessidades do corpo humano, conformava com  Apolo o ideal grego de uma vida equilibrada entre as necessidades materiais e espirituais.
O templo de Delfos era o templo de Apolo cujas colunas lá permanecem até hoje desafiando o tempo. Conta-se que ali o deus falava ao viajante através da Pitonisa, sacerdotisa que intermediava o contato.
Esta crença grega de que os deuses falariam aos homens através dos sacerdotes influenciou as diversas religiões que sucederam aquele período histórico.
Deus pode falar a um ser humano através de outro, de qualquer outro. Para uma criança, os pais se confundem com Deus pela proteção, amor e conhecimento que lhe transmitem. Assim também o mestre, o instrutor, o professor, que junto com o ensinamento transmite a amizade. No entanto, Deus não precisa de nenhum intermediário para que se o sinta nas profundezas do coração, embora esteja ali presente nas palavras e nas atitudes de quem faça um bem para os seus semelhantes.
O Templo do Conhecimento, o oráculo onde cada ser humano pudesse consultar a Verdade seria a sua própria consciência; poderia consultar o Deus único cuja chama arde no interior de cada indivíduo.
No entanto, como a consciência está afastada das preocupações correntes do homem moderno, tão encantado pelas ficções de um mundo luminoso, colorido e sedutor, aquele oráculo não existe.
A realização do sonho do encontro com o Templo do Conhecimento posterga-se até o dia em que o homem desperte do sono que o tem prostrado na indiferença, no materialismo e no desconhecimento de sua própria pessoa.

Nagib Anderáos Neto
www.twitter.com/anderaosnagib


Nagib Anderáos Neto
Enviado por Nagib Anderáos Neto em 22/07/2005
Reeditado em 02/03/2012
Código do texto: T36706


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Sobre o autor
Nagib Anderáos Neto
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Nagib Anderáos Neto