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Em frente a minha casa

Mataram um Cara a tiros ontem, em frente a minha casa. Era o primeiro domingo de fevereiro. O relógio marcava 22h45min.
Quando cheguei da rua já estavam todos, a polícia, os vizinhos e a chuva que não queria cessar.
Ele estava de bruços, não sabia quem era. Totalmente anônimo, sem amigos, sem ninguém pra chorar a morte. Estranho aquele cheiro de sangue no ar... Acho que era a chuva esparramando o vermelho no asfalto. Em frente a minha casa minha família assustada, com medo de que alguém da nossa estima chegasse bem na hora dos tiros, podia vim sem endereço, à bala, e pegar em alguém... Não pude entrar em casa. Deixei o carro um pouco distante para que, depois que a perícia e os curiosos fossem embora da frente do meu portão, eu encostasse o veículo na garagem... Demorou. A chuva não queria cessar. O sangue se esparramando e virando um rio vermelho nas margens asfálticas. Curioso é que as pessoas não se olhavam, não conversavam. Já era 00h03min quando a perícia chegou. Demorado, não se pode morrer por aqui. Aconteceram os rituais de praxe, inclusive a retirada dos vizinhos, e eu puxado pelo meu pai que estava em pânico com medo da polícia me envolver. - Fica sujo meu filho... Difícil até de fazer um concurso público. Entrei. Fiquei olhando do lado de dentro do lote pelas brechas do portão. Mede aqui, tira a roupa ali, foto, encontrou uma “bucha de maconha no bolso do Cara”. Um policial olhou para o outro e disse: ta vendo? Viraram de barriga pra cima, estavam finalizando quando de repente chega uma menina gritando e chorando se dizendo filha da vítima. Momento difícil. Os policiais retiraram e a interrogaram. Ela disse que sabia quem foi, e que só falaria para a Civil, não revelaria nada para a polícia militar. As autoridades respeitaram e deu-se o interrogatório. Já era 01h23min da manhã quando chegou o “rabecão” (carro usado para remoção de corpos para o Instituto Médico Legal). O Cara já estava cinza quando o jogaram na bandeja de ferro. Fecharam as portas e saíram. Eu e minha família estávamos do lado de dentro do portão, e acompanhamos tudo. Já era 02h55min quando fui tentar dormir. Não consegui.Pensativo, comecei a escrever.
Wellington Abreu
Enviado por Wellington Abreu em 05/02/2007
Reeditado em 07/02/2007
Código do texto: T370687

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Sobre o autor
Wellington Abreu
Ceilândia - Distrito Federal - Brasil, 45 anos
15 textos (1579 leituras)
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Wellington Abreu