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CAMPANÁRIO 


Com a nova pintura externa — creme com frisos cor de ouro velho —, nossa igreja católica deste lado de Marechal Hermes envelheceu lindamente uns cento e cinqüenta anos, deixando sem fala até os mais ruidosos militantes da preservação a qualquer custo. 

E não era para menos.

A pintura antiga, cor de sílica, destoava completamente dos prédios em volta, sobretudo o Teatro Armando Gonzaga (autoria do arquiteto Affonso Eduardo Reidy e jardins de Burle-Marx, inaugurado em 1954) e o Hospital Carlos Chagas, provocando em muitos paroquianos, como confessaram a este cronista, a vontade de comprar uma lata de tinta e acabar com aquele horror.

Iluminada por baixo, a partir do adro, a torre do velho campanário dá um show de beleza à noite, elevando-se do alto das árvores da pracinha do teatro e dominando toda a vizinhança. Quem chega ao bairro nos últimos trens noturnos pode agora orientar-se por esse vislumbre de saudade. Aliás, todo campanário é mesmo saudade, saudade de tudo, sem tempo nem alvo determinado.

Tenho um olhar deliciosamente quasímodo para esta torre. Brinquei muito ali em começos da adolescência, levando os padres à loucura. Nos longes de 1961, com os meus treze de idade, subia escondido ao campanário para tocar o sino, nas horas mais desencontradas do dia. Em questão de minutos, via-me cercado por irmãos leigos, que me retiravam do poço na base do cascudo e dos puxões de orelha. E eu tinha orelha de sobra para todos eles; nem precisavam revezar-se na aplicação do castigo.

Creio que foi por isso que me apaixonei, à primeira linha, por Pedra Bonita, de José Lins do Rego. O romance começa justamente com o garoto Antônio Bento tocando o sino da igreja do Açu, manhãzinha cedo, e o episódio torna-se quase um estribilho de toada ao longo de toda a narrativa, um belo intermezzo no conjunto da obra desse grande escritor. Leio sempre Pedra Bonita.

Hoje, voltando a morar no velho bairro, não me afasto mais da vizinhança da igreja. Do meu posto de observação no Fred’s Burger, tomando minha água tônica, acompanho o entra-e-sai dos paroquianos, muita gente nova na parada, muito programa social, muita novidade litúrgica para atrair os fiéis, e esse campanário cheio de luz, lá no alto, o meu livro de pedra.

Devo confessar que não costumo ir ao templo, mas sou um pouco riobaldo-tatarana nessas coisas santas, bebendo água de todo rio, como o outro. Filho de pai protestante com mãe umbandista da linha nagô, fui também batizado e crismado entre os católicos, além dos meus flertes de juventude com a teosofia. Isso é que é corpo fechado e alma prevenida.

Religião, mesmo, só o campanário. 


***


Quase seis da noite.

Estou na frente da telinha do micro, escrevendo esta crônica ao sabor do imediato, e ouvindo o sino da igreja lá fora, perto de onde moro.

É muito cedo para ocupar o meu posto de observação no Fred’s Burger. A missa das seis não costuma atrair muita gente, as mulheres bonitas do bairro ainda estão se aprontando para a das oito, mais concorrida. É melhor dar um tempo. Deixemos que elas se esmerem diante do espelho nos pequenos detalhes da sedução, e falemos do sino, por enquanto.

Hoje é sino mesmo, de bronze.

Há coisa de vinte anos, no entanto, tocava-se o sino numa eletrola portátil, ligada a um alto-falante no campanário. Eram os meus últimos tempos de pinguço, e muitas vezes quase abandonei minha mesa cativa no boteco da esquina para dar uma bronca nos padres. Só não fazia isso, porque era um porre conversar com eles de porre — passavam-me um sermão daqueles e enchiam os meus bolsos com panfletos dos Alcoólicos Anônimos. Nada contra essa boa turma dos doze passos, apenas contra o sermão.

Mas eletrola... por quê? Onde estava o velho sineiro?

(Lembrava-me dele da infância. Português ou filho de portugueses, não conversava com ninguém, vivia pelos cantos, cabeça baixa, sempre com uma vassoura na mão quando não estava tocando o sino. Não tinha mulher nem filhos. Usava tamancos, calça com suspensórios e camisa-de-meia, sempre. Quase sempre. Aos domingos, à noite, vestia um surrado terno branco e gostava de passear na pracinha do teatro, muito na sua. Diziam-no neurótico de guerra. Suportava bem dezenas de badaladas no bronze, mas entrava em crise com um simples estalinho de são-joão, sem exagero. É possível que também não gostasse de crianças. De mim, pelo menos, sei que não gostava. Olhava-me com impaciência, rosnante, especialmente quando eu ia atrás dele para ver como chegava à torre do campanário. Eu já acalentava muitas idéias quasímodas.)

Devia ter morrido. E em vez de contratarem um novo sineiro tiveram a infeliz idéia da eletrola e daquele disco completamente arranhado, coisa de afastar até os anjos.

Está tocando de novo, acaba de dar as sete, convocando-me à piedosa paquera na porta do Fred’s Burger. Hora de tomar um banho e vestir minha nova roupa de cronista de internete: mocassins de couro cru, bermudão branco e camisa pólo goiaba, uma graça. Uma boa penteada nos cabelos de palha seca, uma escovada no bigode, um ou dois borrifos de perfume.

Ao vencedor, as beatas!


[7.10.2006] 

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 15/02/2007
Reeditado em 15/02/2007
Código do texto: T381745


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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 72 anos
166 textos (18138 leituras)
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