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NAU DOS INSENSATOS

O peixe de escamas  de ferro sobe á superfície  e espia a redonda Lua . O mar azul  escuro com ondas  brancas deixa  o barco lhe  fazer cócegas . O barco  é o navio  dos desgarrados , dos desesperados , repatriados  á força. Vagueiam  entre procelas , noites calmas , dias de  bebedeiras . O capitão - comandante  na ponte anda  sobre um pé só  enquanto a marujada  ouve sereias decrépitas  e desdentadas . Netuno foi aposentado, as Nereidas  fazem greve . O peixe  pescado hoje  já tem mau cheiro . Os olhos  embaçados do peixe morto . olha para nós  do outro lado da água .A rosea  rosa  que desabrocha  esta  na lapela do homem  gago  que em suspiros tenta  falar com a moça  tímida  na amurada do barco . Ontem mesmo ela tentou o suicídio , único meio  de sair deste barco  que deixou o caís  bem antes do Fim do Mundfo . Navega reto  pelo mar curvo . Prova cabal da esferidade da bola azul. Gagarin disse que a Terra era azul  e todos nos acreditamos . O distintivo  do piloto do navio  é redondo  e prateado , fixado no coração  com uma taxa  paga pelo dono  da embarcação . Todos os passageiros  se foram da amurada  , só ficou  o homem  gago e a jovem  suicída . Olhos verdes  que olham o peixe  de escamas de ferro . Pensa se acaso  ele não é mais feliz do que ela , vindo de um caso desfeito. Embarcou  no navio meio sem jeito , aquilo seria a única   coisa sensata á fazer . O peixe  é um peixe , mesmo com escamas de ferro , mesmo nadando  no mar revolto. O homem gago  olha penalizado  a moça na amurada . A Lua redonda  ilumina o chão , o mar a careca  luzidia do marujo  alto é forte , sem camisa  de sunga que passa por eles . Mais um igual  á qualquer outro  da marujada . O homem  gago  abraça a moça , que não reclama  só se acalma , se aconchega , sorri . Os dois se olham , beijam-se  um beijo roubado  e acenam concordando , mudos . Não perguntarão   nomes ou idades . Acertados,  na muda aceitação do inevitável , os dois se jogam no mar , onde a Lua  e o peixe  de escamas  de ferro  serão as únicas  testemunhas  finais do fato. E nenhum deles  irá falar, o mar  os engole  e cobre com seu manto  liquido . O barco  continua o caminho  . Amanhã outro casal ocupará  a amurada . O peixe e o mar sabem disso.

MARIO ORTMAN FERREIRA FILHO- GROTIUS    
grotius
Enviado por grotius em 21/02/2007
Código do texto: T389062

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Sobre o autor
grotius
Santo André - São Paulo - Brasil, 65 anos
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