Trote

- Dá um trocado, tio!

Ah, não! Mais uma crônica batida sobre a indecente miséria brasileira e sua semente em um sistema de distribuição de renda desigual. Ou melhor, outro desabafo social afogado na esperança rasa de que não há paz sem choro. Felizmente, ou não, este texto não tenta entupir-se de metáforas para vangloriar o desespero faminto dos pedintes comuns. A apelação de tom submisso fugiu da boca de um personagem estreante. Peça de um ato só, espera-se. Figura clássica, conhecida, e que insiste em manter a tradição.

Mas nossa figura não estava só. Cópias de dimensões diversas amontoavam-se entre automóveis, fermentando a ira de motoqueiros de olhar malandro. Nos carros, alguns avistavam o avanço pelo retrovisor e levantavam os vidros. “Vocês não tem nada melhor pra fazer, seus vagabundos?”, reclamavam. Curiosamente, outros estimulavam a aproximação, mais para fazerem parte do espetáculo grotesco do que pelos trocados cedidos. “Você é muito gostosa, sabia? 5 centavos tá beleza?”

Cigarros também eram aceitos como alternativa monetária. “Cigarro vale! Cigarro vale!”, confirmavam algumas figuras encostadas, atuando como supervisores da operação. Diferentemente das mães pobres e nanicas, que se disfarçam de sujeira para vistoriar o desempenho dos filhos, esses preservavam o sorriso e mostravam-se “cheios de marra”. Motoristas pegos de surpresa protegiam-se, “nem a cacete, esse cigarro é o último!” Mas a força que impulsionava o bloco e mantinha a exploração ativa não permitiria que a negativa afetasse o resultado. “Vamo arrecadar, seus inúteis!”

A maioria exibia pinturas exóticas, marcadas com habilidade duvidosa e com pressa óbvia. Os menos tímidos, ou talvez, mais espertos, abordavam automóveis em duplas. Coreografados no improviso do momento, alternavam versos abestalhados e sem sentido.

- Oi! Eu sou a Carol!

- E eu, a Lú!

- Eu vou cantar!

- ... e eu vou dançar!

- Humpf! Por mim...

- Cigarro vale, hein?

- Pririri, piriri, piriri...

- Lú!!! Olha a moto!

- Que mo...

Caso isolado. A aproximação bem feita realmente aumentava as chances de sucesso.

Horas depois a tarefa continuava. A tinta sofria o calor do sol, escorregando pelo rosto exausto de quem se esforçava para estender a mão. “...um trocado... por... favor... cigarro... vale... por...favor...”, balbuciava uma gordinha de óculos embaçados. “Ainda falta! Ainda falta!”, berrava o recém nomeado tesoureiro do grupo, encostado em um poste encardido entre um gole de cerveja e outro.

Percebeu-se junto aos supervisores, alguma garotas sorridentes. Apesar de fingirem estar de passagem, os cabelos alisados, a roupa impecável e a maquiagem recente apontavam o ritual prévio. Além disso, equilibravam-se nos saltos da moda com a sutileza de um cangaceiro. Aceitaram um gole de cerveja e ficaram para assistir o espetáculo de camarote.

- Nossa, Edu! Esse ano tá um puta astral!

- Sussa...

- Dá um gole dessa breja?

- Só...

- As férias te fizeram bem, hein, gato?

- Pela ordem...

- Fica comigo?

- É nóis...

Quase anoitecendo, o apito estridente avisa que podem parar com a arrecadação. Lenta e ainda manchada de tinta, a mão-de-obra acomoda-se em qualquer espaço vazio na calçada. Percebe-se que alguns massageiam as coxas doloridas. Outros, alisam as bolhas de sol na testa. O tesoureiro confere o saco de moedas. Confirma com um sorriso o saldo positivo. Todos se atropelam em direção ao boteco mais próximo.

Enquanto um dos supervisores sugere o primeiro brinde e ensaia algumas palavras sem sentido, a garrafa de cerveja é arrancada de sua mão. Diante da multidão muda que vaza pela porta do bar, a gordinha de óculos chupa o gargalo e engole todo o líquido gelado com olhar maníaco, deixando parte escorrer pelo pescoço de dobrinhas brancas. Segundos depois, solta um arroto desafinado e cai sobre a mesa, espatifando alguns copos de pinga e derrubando o radinho de porteiro que sintonizava o último sucesso do Calypso. O dono do bar é quem dá a sentença: “a gorducha aqui, tá sem pulso! Quem vai pagar o estrago?”

Um aluno veterano, responsável pela organização das famosas festas da faculdade, balança a cabeça, conversa com o proprietário lesado e ordena:

- Vamo lá, cambada de inútil! Cigarro vale! Cigarro vale!

Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 28/02/2007
Reeditado em 01/03/2007
Código do texto: T396361
Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.