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Sinfonia das Lágrimas

"Et in Arcadia Ego"
(Guercino, Les berges d'Arcadie)

     Se minhas lágrimas tivessem som, elas seriam como o ecoar do mar de Debussy, sem o qual jamais pudesse talvez eu pairar sobre o tempo e pensar.
     O martelo conta os pregos da tábua da razão, eu sinto como se a procela cada vez estivesse mais perto e fosse crescendo em fúria, como amor cresce em direção ao alto.
     Tento olhar o sol, tiram de mim a água com a qual mataria minha sede e seria capaz de ver a noite chegar, com mais um sorriso nos lábios. Mas minha mão queima ao saber daquilo que não possui e os grãos de areia escoam por entre os dedos.
      "Je vole, amour, je vole où tu m'apelles..."
      Que eu faço, se a voz da soprano, constrasta com as cores de meu arco-íris, sinto o nariz trancar, ninguem compreendeu os paladinos dedos mágicos de Rameau, por que haveriam de me compreender?
      "Quelles sont tes faveurs, pour les amants fidèles?"
       Tenho grandes pretensões, alguns sonhos na algibeira, um livro de poemas (sussurrados à meia noite a orelha do bem amado, com entrecortados suspiros do amanhecer), algumas páginas impublicáveis de vida, outras de grandes fantasias já conhecidas... e uma mão larga, e estreita como o primeiro jato de luz.
       "Tu brises leurs chaînes cruelles, et tu les enchaînes de fleurs"
       A música não pára, lamento os sonhos perdidos no caminho, almejo as poucas lágrimas não derramadas...
        Mas no fundo não sei dizer ao certo se sei alguma pequena verdade, sinto a ponta da faca cutucando uma costela na fúria assassina da ansiedade, da busca da moeda esquecida em algum lago, cujo desejo não foi realizado.
       E eu penso, e me esqueço de chorar, quando tudo é silêncio e escuridão, estou só comigo, e, tento, não consigo, tento novamente, talvez entrevejo-me no espelho com algum amanhã a se esconder sob a ponta dos dedos.
       E porque tudo é incerto eu não sei chorar...
       Encontro algum consolo nas páginas amareladas do diário de algum tempo perdido, tento reencontrar-me neles... mas não sei... as teclas batem duras... pretas e brancas... como as rosas de um filme antigo, batem em mim. Me lançam ao caos...
       E tudo o que eu queria era só não ter de verter a minha última esperança com uma lágrima rubra, a tingir de escarlate, rosas vermelhas de sangue.
      E eu, estou aqui, existo, mesmo na Arcádia.
Ev
Enviado por Ev em 06/03/2007
Código do texto: T403226

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Sobre o autor
Ev
São José - Santa Catarina - Brasil, 32 anos
56 textos (2959 leituras)
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Ev