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A Cela

             Vinte três horas e cinqüenta e sete minutos era o que dizia o relógio em frente a minha cela, o tempo parecia estar parado. Levanto da minha cama, eu estava sozinho, ou melhor, estava acompanhado de alguns ratos e baratas, da cama atrás de mim, dessas grades que impediam que eu tivesse a minha liberdade...  Passei a andar para um lado e para o outro, não tinha notado, mas ainda estava de terno e gravata, parecia que tinha sido preso a uma eternidade, só estava ali por uns dois ou três dias não sei.
               Meia noite era o que dizia o relógio em frente a minha cela, nesta altura do campeonato eu já não sabia se acreditava naquele pequeno aparelho de plástico com ponteiros. O silencio era tudo que estava em minha volta, havia uma janela gradeada no alto da parede que deixavam à luz da lua entrar na minha cela, como se eu me importasse se tinha lua ou não. Continuo andando para um lado e para o outro, não tinha o que fazer, não havia nada para fazer, nada, nem dormir, eu sofro de insônia já faz uma semana que não durmo direito e ainda mais nesta prisão fedorenta. O silencio me consumia, parecia que tinham me esquecido aqui, só vinha um guarda para me dar um prato de janta e outro de almoço e mais nada... Por que fui escolher ser preso logo em uma cidade de interior!!?
                 Meia noite e dez era o que dizia o relógio em frente a minha cela, só tinham se passado dez minutos, dez minutos! Vou até as grades, seguro nelas que nem um naufrago segura em seu bote quando vai passar pelas ondas, o corredor onde ficavam as celas estava escuro e fantasmagórico, só se ouvia o tic-tac do relógio em frente a minha cela.
                - Tem alguém ai!!? – grito para o vácuo que me cercava – Socorro preciso de ajuda!!!
               Não ouvia nada alem da minha própria voz.
                - Socorro estou morrendo!!! – minto, alias mentir é meu forte fui preso por isso – Por favor, ajuda!!!
                 Caio sentado no chão, me sentia como uma criança que teve o brinquedo tomado. Começo a soluçar, passo as mãos no meu rosto como quem o limpa, tento me esconder da escuridão que me cerca, tento fazer algo.
                Meia noite e meia era o que dizia o relógio em frente a minha cela. Eu andava em círculos, estava soando frio, estava entrando em desespero, comigo só tinha a luz da lua... Cadê a luz da lua? Começo a procurar no chão como quem perdeu uma lente de contato, onde está a luz da lua? Cadê a luz da lua!!?
                - Lua! Cadê você? – grito para a janela – onde você se escondeu?
                  A lua surge de trás das nuvens, não tinha notado que era uma lua cheia... A luz dela volta a bater na minha cela projetando a sombra das grades no chão, começo a chorar de felicidade e me deito sobre a luz da lua.
                  Derrepente um barulho, me levanto alarmado, corro até as grades e me seguro nelas procurando o sinal de alguém no corredor, não importava se fosse o diabo eu queria era alguém para conversar.
                   - Tem alguém ai!!? – pergunto... Nenhuma resposta.
                   - Tem alguém ai!!? – volto a perguntar, novamente só ouço o tic-tac do relógio.
                  Uma e quatro da manhã era o que dizia o relógio em frente a minha cela, eu estava deitado no chão, olhando para o teto branco, estava sem o palito, tinha tirado ele e jogado em qualquer lugar, também tirei meus sapatos mocassim e minhas meias da Dido Lavonteur, uma marca francesa caríssima! O ar era fétido, tinha uma privada suja na minha cela, acho que a descarga daquilo já estava quebrada quando construíram essa prisão. O silencio reinava, ou melhor quase reinava, o tic-tac daquele relógio infernal entrava na minha cabeça como se fosse uma broca, ele sempre repetia as mesmas palavras: tic-tac,tic-tac, tic-tac. Levanto-me desengonçado e caminho até as grades como um bêbado e digo:
                   -Cala a boca!
                   - Tic-Tac.. – O relógio responde
                   - Você só fala isso!!? – digo indignado
                   - Tic- tac, tic-tac... – diz o relógio com um tom de deboche
                   - Calaboca! – grito.
                   Duas da manha era o que dizia o relógio em frente a minha cela, eu estava sentado de costas na parede como se fosse um louco no manicômio. O relógio... Ah maldito relógio, a única companhia que tenho só repete a mesma palavra. Começo a roer as unhas compulsivamente, eu estava enlouquecendo o tempo não passava, não passava de jeito nenhum, sempre achei que cazuza era louco, agora tenho razão, como é que ele canta uma musica chamada “o tempo não para”. Continuava a roer as unhas compulsivamente, era meu passatempo era o único meio de fazer o temp...
                   - Ai! – grito abanando a mão no ar, vi um pouco de sangue brotar no canto de minha unha.
                   - Essa não hemorragia, vou morrer, vou morrer! – digo enrolando minha gravata de duzentos dólares na mão – vou sobreviver, hemorragia contida, vou sobreviver!
                   - Tic-Tac – debochava o relógio.
                   - Você esta rindo não é! Você está rindo! – pego o meu sapato e atiro no relógio, ouço o vidro do mesmo quebrar... Ganhei! Eu ganhei de você maldito, o relógio cai no chão...Mudo.
                   - Eu o matei? – digo com os olhos cheios de lagrimas – não! Eu o matei! Ei cara fala alguma coisa!!!
                   - ...
                   - Fala alguma coisa maldito!! – nenhuma resposta eu matei minha única companhia.
                   Duas e dez da manha era o que dizia o relógio silencioso e caído com o seu vidro quebrado em frente a minha cela. Eu ficava olhando para ele, notara o que tinha feito... Eu parei o tempo, os ponteiros não se moviam não se moviam de jeito nenhum!
                   - Meu Deus! O tempo parou, vou ficar aqui para sempre – eu dizia – pelo menos eu ainda te tenho lua, lua?
                   Minha batalha com o relógio tinha me distraído, eu não sabia que a lua tinha ido embora... Eu fui abandonado, eu fui abandonado pela lua abandonado... ABANDONADO PELO MUNDO! Já sei! Vou quebrar tudo, talvez eles ouçam e venham ver o que aconteceu. Passei a destruir tudo, pulei em cima daquela cama até ela ceder, peguei uma das madeiras que seguram o colchão e comecei a bater na privada, bati,bati,bati até ela quebrar jorrando o seu liquido fétido.
                   - Tem alguém ai! Por favor, me tirem daqui!!!!!! – grito com as lagrimas em meu rosto caindo naquela água nojenta que lavava a minha cela agora destruída.



                                                  ...
                  O sol estava brilhando forte quando aquele Gol vermelho parou na porta da delegacia, eram seis da manha e o sol estava esquentando aquele dia que prometia ser calmo na vida do delegado Barbosa. O delegado fechou a porta de seu Gol com um baque vazio e ligou o alarme, caminhou cantarolando até a sua delegacia para abrir-la. Era uma delegacia de interior, no mês havia no maximo umas duas ou três prisões, era uma cidade tão pacata que delegado Barbosa fechava a delegacia de noite.
               Ao entrar, o delegado sentiu um cheiro realmente desagradável, tomou um leve susto do guarda que acabava de chegar dando um bom dia.
               - Guarda, está sentindo este cheiro? – diz o delegado
               - Estou, parece que vem das celas.
               - Mas não tem ninguém lá.
               - Tem sim delegado, lembra que prendemos um homem procurado por estelionato.
               - Ah sim – diz o delegado batendo de leve em sua careca – Vem até aquele pessoal de São Paulo hoje levar-lo.
                - Ele mesmo.
                Sim, vamos deixar de conversa! Tem alguma coisa estranha, esse cheiro... Será que ele fugiu!? – diz o delegado correndo até as celas.
                O corredor das celas estava iluminado pelo sol, delegado Barbosa andava por ele as pressas... Avistou um relógio no chão próximo da penúltima cela... Também estava ouvindo um murmúrio.
´               - O que esta se passando aqui... Nossa o que é isso!?- diz o delegado colocando o dedo no nariz junto ao guarda.
                - Todos me deixaram aqui para apodrecer, estou apodrecendo... Estou sim, estou hahaha.
                - Ele, ele pirou! – diz o guarda com uma voz fininha pelo motivo de estar pressionando o nariz.
                 - Pirou completamente, quanto tempo ele estava aqui? – diz o delegado com a mesma voz fina do guarda.
                  -Contando com hoje... Nos o prendemos ontem a noite, umas...  Quinze horas.
                  - Quinze horas! Parece que ele esta aqui a uns quarenta anos – diz o delegado apontando para o homem sentado de costas na parede sob aquele liquido marrom e fétido – E esse maldito só deu prejuízos ele quebro até o relógio
                  O delegado abaixou-se lentamente e pegou o relógio... Duas e dez da manha era o que dizia o relógio quebrado na mão do delegado Barbosa.
Rhuan Rousseau
Enviado por Rhuan Rousseau em 15/03/2007
Código do texto: T414096


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Sobre o autor
Rhuan Rousseau
Fortaleza - Ceará - Brasil, 29 anos
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Rhuan Rousseau