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FARO DE LOBA

               Como qualquer ser da espécie feminina, “equipada” com os famosos cromossomos XX e ainda não devidamente influenciada pela onda moderníssima de ser super-hiper-mega-ultra eficiente e produtiva (e completamente viciada em trabalho e, portanto, sem direito a emoções) contribuinte para esta nossa magnífica sociedade, eu tenho sim um tal sexto – e provavelmente sétimo, oitavo e quinquagésimo-nono – sentidos. Tenho uma baita antena (o que não quer dizer antenada, neste sentido maléfico da gíria, já que sou até meio off nesse campo) e sim, é quase um satélite. 

               Traduzindo tudo isso em palavras mais normais – sou instintiva, tenho o que as que não se envergonham do seu lado feminino chamam de faro apurado. Meu lado lupino, por assim dizer. Claro, porque aos quarenta e quatro, se eu já nasci meio loba, agora virei uma loba inteira. E os lobos, como os cães, reconhecem os perigos, os amigos e os inimigos mesmo travestidos de inocência de cordeiros. 

               Tudo isso me leva ao ponto de que, não importa o que digam as aparências, as estatísticas, os melhores amigos, os maiores inimigos, as revistas da hora, eu vou mesmo é para o lado que o meu faro me manda ir. Instinto: a palavra mágica. Sei que com isso minhas atitudes soam, mais das vezes, irracionais. Só que se meu satélite acusa em letras garrafais “VAI DAR M...”, não ignoro o aviso, refaço imediatamente os cálculos, mudo completamente a rota, reescrevo o script e vou para o lado oposto. Bom avisar que, nas pouquíssimas vezes que ignorei o aviso, deu o que estava no letreiro. 

               Por outro lado, quando tudo indica que a Lei de Murphy vai funcionar (aquela do “se tem 1% de chance de dar merda, pode estar certo que vai dar”, lembram?), não dou a mínima se o meu instinto disser que mesmo dando meleca vai valer a pena. E, é claro, assumo os riscos e as conseqüências. Sempre, é claro, existe a turma do “deixa disso”, “te cuida que é fria” e por aí vai. E eu vou. Para onde meu faro aponta. 

               É claro que não sou uma completa idiota que ignora as possibilidades de encrenca no final, que não pondera as pedras no caminho. Pondero. E até uso as pedras para uma eventual escadinha caso uma escalada se faça necessária. Por que não me guio pelo provável, pelo que se mostra líquido e certo e prefiro ir pelo faro? A resposta é simples: eu me conheço, sei quem sou e sei bem o que quero e o que não quero. Estico minha tolerância numa situação desconfortável até o ponto em que meu faro diz que é hora de bater em retirada e mudar de planos. Sim , porque o dito cujo pode até ter dito que algo que eu tinha em vista valia a pena, mas também não deixa de me ligar a parabólica e avisar que a coisa está dando sinais quando o barco vai fazer água. 

               E nessa hora, meus caros, deixo a loba de lado e viro rato. Abandono o navio porque não tenho vocação para náufraga eterna. Há quem chame isso de covardia ou pouca perseverança. Eu chamo isso de auto-preservação, inteligência emocional, para quem prefere uma linguagem mais moderninha. 

               Você gosta de afundar e prefere ouvir as vozes de fora em vez da sua voz interna? Vá em frente. Só não me convide.


Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 22/03/2007
Reeditado em 02/09/2008
Código do texto: T421586

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 56 anos
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Débora Denadai