A arte de envelhecer

Tenho uma amiga muito inteligente, mas muito mesmo, destas que publicaram livros, artigos, debateram em muitos lugares, conheceram muita gente e que conhece bem o Brasil e o exterior. Não sei o que anda ocorrendo com ela, mas nos últimos tempos tem falado muito sobre a finitude e a grande arte de envelhecer. No jogo da vida, onde ganhamos e perdemos, jogamos com inúmeras estratégias e nestas condições podemos envelhecer de três formas.

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Em primeiro lugar, corremos um sério risco de ficarmos chatos, ranzinzas, encurvados e, no máximo carrancudos. Esta é uma possibilidade muito conhecida, pois nestas relações encontramos as pessoas que não aceitaram bem o envelhecimento. São homens e mulheres que ainda sonham com o passado, o corpo perfeito e a virilidade em alta. Por vezes, são pessoas que projetam no outro a dor da envelhescência e descontam em tudo e em todos os problemas que, por natureza, estão em proximidade. Segundo minha amiga, ela se depara com muita gente que não sabe lidar com a possibilidade de adoecer e muito menos com a doença dos outros. São pessoas “atormentadas” pelas próprias neuroses e, em eterno conflito com o mundo, a vida se perde diante do espelho tornando-se insuportável.

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Em segundo, encontram-se as pessoas que vão ficar ou que ficaram gagás. Uma condição meio esquisita em uma palavra também esquisita e que significa tanta coisa que a gente até se perde. Gagá é a pessoa considerada inimputável, senil, doida, incapaz e caduca. Ao cair no gosto do senso comum, a palavra passou por certas transformações e passou a caracterizar as pessoas com mais idade e que, por diversas razões tem o comportamento afetado, histriônico e sem lugar. De todo modo, trata-se de um lugar no qual tanto os homens como as mulheres são rejeitadas, deixadas de lado, seja por invalidez, seja por questões de doença ou necessidade. Talvez encontremos aqui um dos motivos porque muitos foram jogados nos asilos, esquecidos dentro de casa ou que sofreram violentamente o processo de morte social.

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Por último, a terceira, a querida amiga disse da arte do envelhecimento com sabedoria. Não sei se ela é leitora da Bíblia, mas em vários lugares no livro sagrado encontramos a beleza de ser velho com experiência e mansidão. Em algumas sociedades primitivas, as pessoas velhas são bem tratadas, respeitadas e raras vezes não são entendidas como exemplos de uma história viva que se passou e merece reverências e saudações. Não há dúvida que esta é a melhor forma de envelhecimento. A sabedoria é um conceito polissêmico, mas no caso em tela pode significar o conhecimento, a capacidade de discernimento, o equilíbrio perfeito, a mansidão e o controle de uma vida vivida e terminada com dignidade. A ideia é perfeita e digna de louvor, pois dificilmente nos tempos modernos, onde as pessoas não querem envelhecer, a capacidade de ser sábio tem diminuído. Não por acaso homens e mulheres se transformam em tios e tias, vovôs e vovós chegando ao cúmulo de esconderem a idade e o corpo com largas características de sofrimento, dor e passagem por uma vida que não é fácil.

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O fato é que do processo de envelhescência ninguém escapa. Mais cedo ou mais tarde envelheceremos como um processo natural que é. Esta situação inexorável é extremamente democrática e não vejo tantas vantagens em ficar por aqui durante muito tempo. A vida é uma passagem, um conjunto de fatos inevitáveis em que temos a prepotência de achar que possuímos algum controle. A eterna “juventude” é uma bela mentira que nos contaram. Temos tempo determinado: uns mais outros menos. Lidar com a velhice, ficando gagá, chato ou sábio vai depender muito das condições e de como levamos a vida. Que esta situação seja tranquila, cheia de paz, mansidão, amor e fé.