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Parabéns, professor!

          Houve um tempo em que professor era apenas professor. Foi um tempo bom que não vivi. Não me refiro a status nem à questão financeira. Refiro-me à valorização profissional, ao respeito e coisas desse tipo. Nesse tempo, as famílias eram famílias de fato e não o que são hoje. Escola era lugar de aprendizagem e não mero passatempo de quem a frequenta em nome de benefícios sociais das mais variadas espécies. Havia a preocupação em passar ou não passar de ano e consequentemente mais interesse. Mesmo os que tinham dificuldade, esforçavam-se mais. Quem não estava a fim, simplesmente não ia e a vida ensinava, como continua a ensinar, de maneira bem dura. Não havia tantas facilidades e, por conseguinte, mais criatividade. Ao contrário de hoje, ensinava-se a pescar; o peixe não vinha pronto.

          Alguns hipócritas imbecis talvez achem tudo isso um saudosismo amargo. Mas não se trata disso. Trata-se de uma constatação do que o descaso geração após geração, governo após governo, causou para a Educação. Depois do surgimento de diversas teorias – feitas com práticas alheias – praticamente toda a responsabilidade pelo insucesso passou a ser da escola, do professor, do diretor, do coordenador e por aí vai. Provavelmente porque é mais fácil manobrar uma massa midiatizada com lixo cultural e sem capacidade para uma reflexão concreta acerca da realidade.

          Hoje, importam mais números que mascaram a realidade em troca de financiamentos do que a preocupação real com o aprendizado. Esta cabe apenas aos professores e gestores, obviamente nem todos, pois não vivemos numa sociedade utópica. São poucos os especialistas (ou pseudo?) que se mostram conscientes de que é necessário impor responsabilidades ao aluno, à família e cobrá-los por não cumprirem seu papel. Estes poucos mal têm voz e vez, pois os governantes, do alto de sua demagogia, disfarçada de democracia e socialismo cerceiam-lhes as oportunidades.

          Pouco se ouve falar dos desvios de verbas, pouco se ouve falar da falta de escolas, pouco se ouve falar da insegurança e da desmotivação em trabalhar, pouco se ouve falar das condições – muitas vezes insalubres – de trabalho. Porém, muito se ouve falar que se o aluno não aprende, a culpa é do professor; se o aluno não vai à escola, a culpa é do professor; se o aluno sente-se desmotivado, a culpa é do professor; se o aluno não consegue notas dentro ou acima da média, a culpa é do professor; se o aluno xinga, ofende, agride, a culpa é do professor. São tantas incoerências que é fácil se perguntar o que não é culpa do professor. Para completar parte deste quadro dantesco, a mídia, controlada e vendida, em sua maioria, corrobora a posição estatal ao induzir o povo desavisado (ou cego-surdo-mudo?) ao erro de que são os professores os responsáveis pelo carro desenfreado da Educação a descer a ladeira do fracasso.

          Se cada macaco tivesse ficado e cuidado do seu galho, o rumo da Educação seria outro, não há dúvida. Entretanto, muitos pais delegaram à escola o papel de educar seus filhos em todos os aspectos da vida. Assim, pensam se livrar da responsabilidade que lhe é natural e depois culpam os outros por sua incompetência. Ora, sempre existiram pais (e mães) que trabalhavam e nem por isso se eximiam do que lhes é dever ditado por Deus e pelas leis humanas. Sociedade hipócrita! Incumbiu ao professor papéis que não lhe competem e cobram dele aquilo que ele deveria fazer.

          Professores! Professores! Professores! Apesar de seus defeitos, que não são poucos; apesar de seus problemas, que são inúmeros; parabéns por nosso dia. Parabéns por persistirmos na luta, apesar do cansaço (um dia ele vai vencer). Parabéns por suportarmos a forma ridiculamente pérfida e desrespeitosa com que somos tratados pelo SISTEMA. Parabéns por suportarmos as agressões físicas ou verbais, muitas vezes sem a possibilidade do revide. Parabéns por ainda contribuirmos com a formação de pessoas. Parabéns mesmo quando trabalhamos mais por necessidade que por paixão. Parabéns, professores, pois ainda há quem nos reconheça e valorize o nosso trabalho. Parabéns porque ainda há os que demonstram sentimento de gratidão e isso é verdadeiramente edificante e nos joga uma gota de esperança na semente do futuro que plantamos diariamente.

          Parabéns, professores! Parabéns porque somos o que restou na caixa de Pandora.

Cícero Carlos Lopes– 15-10-2013
Cícero Carlos Lopes
Enviado por Cícero Carlos Lopes em 15/10/2013
Código do texto: T4527105
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Sobre o autor
Cícero Carlos Lopes
Ferraz de Vasconcelos - São Paulo - Brasil, 43 anos
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