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Almas Gêmeas



Perdi minha alma gêmea e, não é que quisesse perdê-la. Simplesmente, assim foi mas não posso viver sem este ser e suponho, vice- versa.

Não sobrevive sem mim nem eu sem ele_o ser_, ou viraremos minério da pior brutalidade uma sem a outra, depois de um doloroso aprendizado de convívio. E não é esta moleza de casamento que conhecemos aqui na terra. Se não aprendermos tolerância temperada com paixão, tornamo-nos areia do Saara, soprando sobre pombais mortos.

Temos de desenvolver o mútuo amor que temos e é imenso, na razão direta da necessidade que temos de estarmos juntos e na razão inversa da produção das mágoas geradas, que nos separam.

O corpo muito comanda a alma e às vezes é péssimo timoneiro.

Vou tratá-la, à minha alma gêmea, a partir desta frase de "o" , no masculino, pois tendo eu nascido do sexo feminino, sinto-me meio mal em dizer que " ela é meu grande amor", ainda que alma não tenha sexo.

Perdi meu " almo gêmeo", doravante, "ele" . Embora estas minúcias não sejam bem vistas pelos nossos superiores num lugar, que vulgarmente chamamos céu. Donde pode-se concluir que o perdi também por teimosia, pois não sou dada a cumprir regras... Já fui chamada lá em cima várias vezes a prestar contas e a isto chamamos morte, mas desta vez exageraram comigo..

Eu não devia estar falando assim, pois meu superior é muito severo, mas se eu penso, dá no mesmo, porque ele sabe de qualquer jeito. No fundo, bem que me tem como pupila predileta e sempre me enfeita de atributos lindos quando vou voltar, hora de cumprir uma nova pena: sempre me são propostas causas como se fossem uma batalha humanitária a completar, para ver se eu melhoro. Daí eu ser uma pessoa muita ocupada.

Dos atributos que me foram dados, eu dizia, ressaltam-se a verbalização seguida de gestos insinuantes e simples, o que produz incrível capacidade de sedução. Pele macia, voz quente, traços suaves, quase de anjo, (esse pessoal eu penso que não conheci ainda: os anjos) carinho e amor, ainda que desorganizados. Tais atributos valem mais que o dólar , na bolsa de valores do céu, mas eu sou uma incomensurável esbanjadora de moedas.

Desta vez, o preço da saudade dele, meu almo, é tão alto, que bem feito para mim, tenho aprendido na marra. Era para estarmos juntos agora, que outro termo não temos para definir esta espiral que explode, que a ela chamamos agora ou depois, tempo em suas subdivisões em dias e séculos, horas e segundos, estações e estradas, rosas e folhas secas, prédios, lápides, fontes, guerras e festas juninas. Ah... e fagulhas subindo aos céus!

Nascemos pela primeira vez num ninho, como se fosse de águia e ele, sujeitinho mais sem paciência, no primeiro piado demonstrou, seu ímpeto, autoritarismo e desobediência... Afinal, devíamos voar juntos e compreender a plenitude do universo, segundo as leis da gestaltdivina, o que um espírito solitário não vê, pois o sentido de um só confunde a visão que o aprendizado comungado traz
Diante da minha pressa de compreender o caos, ele me dizia: Espere . Sua voz é imperiosa e doce e seria perfeita para meu comando, se não fosse ele, dado a certos atos vulgares, em seu espírito implantados como chips de última geração tecnológica, para me testar, pois o que é feito para ele diz respeito a mim e o contrário também vale.

Havia uma alminha gorducha, no ninho do lado, que , nasceu menos evoluída que a gente e nas vistas do almo dela falou: - "Ai , sou tão frágil, queria voar, mas não vou conseguir" Seu nome era Barbie! Ele quis olhar e ajudá-la, o que não era absolutamente da sua conta, pois que não o fazia por generosidade , mas por vaidade devido ao chips provocador. Coitado, mal teve tempo de olhar para a alminha de voz esganiçada, pois eu já havia pulado para o precipício e até que fui bem , nos primeiros mil metros rasos de queda livre, mas me espatifei num rocha e machuquei as asas sentindo pela primeira vez a dor da saudade, que é como dor de asa quebrada inventando a distância.

Donde se conclui que sou impetuosa, um "pouquinho" autoritária e desobediente. Ah! Mas bem mais charmosa ( e, infelizmente, vaidosa e ciumenta) ! Ele se perdeu tentando me encontrar e machucou-se nos dedos.

Não me cobrem a coerência que deveria existir entre ter asas e ter dedos, pois eu também não sei e eu não recebo informações completas sobre o sentido e forma das coisas , mas leves dicas, que, de tanto voltar, tornei-me uma espécie de malandra agulha, molde 171, que dá dicas proibidas para almas com menos estrada:"Tipo, olha, aqui tem um atalho."

Daí, que nesta vida, tornei-me terapeuta.

Ele, ao machucar os dedos, sentiu a dor da saudade como impotência do que os dedos quebrados não podem fazer e inventou a nostalgia que bateu pela primeira vez em nossos corações. Uns acham a nostalgia pior que a saudade, mas há os que acham o vice-versa.

É que a saudade gera ansiedade e vontade de sair voando destemperadamente, enquanto que a nostalgia nos deixa estagnados com vontade de andar olhando para o chão, sensação de passado que não volta, por esquecermos que o tempo é espiral circular onde ao se voltar, alça-se vôo maior.Como uma crise de depressão, bem administrada e breve.

O nostálgico de vez em quando levanta os olhos e vê no desenho das nuvens , nas copas das árvores , ou no quebra cabeça estrelar, algo que procura e que não sabe o que é... "pois o que passou passou". E vê , sem reconhecer sua alma gêmea enevoada, muitos vultos fundidos numa só neblina , em folhas caindo, rios, animais. Ai, desta vez ele escolheu bois em vez de garças cor de rosa. Daí que nesta vida ele tornou-se artista plástico e vive entre almas fantasiadas de planícies de corpos , nos quais passeia e se perde ao tentar plantar o amor no que parece terra macia e é rocha para seus instrumentos laborais, talhados para a densidade do meu amor. Ele sai machucado, com saudade e raiva redobradas. Aí ele bebe e adora um tango que é meu também , faz uma pantomima de amor descartável, fabricado em Puerto Ströessner . E quando acorda de ressaca e mau humor, fala de perfumes que não sabe definir e de sons de sinfonia da vida em partitura rasurada pelos seus desmandos...Ele fala de mim, mas não pode saber, pois que a primeira regra, a da tolerância ainda que engolida com fel, quebrei-a eu quando pulei do ninho.
Não possuo informações sobre outros encontros que possamos ter tido e isto me dói como flecha constante em meu peito. Foi então que inventei para sempre, uma leve angústia que dorme de vez em quando em nossos corações. Como mendigo buscando abrigo.

Uma confissão que me dará crédito junto ao meu pai, aquele superior do céu é a seguinte...sussurrando: tornei-me também poeta, que é uma forma de adiar o encontro do amor, por puro medo, numa suprema maquiagem de palavras tentando amar o cosmo, que não pode ser amado sem a compreensão do caos e do respeito à individualidade, etapa, que almas de qualquer classe ou patamar, querem pular.

Não adianta, tem de se respeitar a individualidade, para que haja união, para alcançar a magia das magias que só é possível no amor de almas gêmeas fundidas, que, dizem , neste estado enxergam utra-violeta e cores e brilhos inimagináveis.

Almas gêmeas separadas por muitas idas e vindas, são primorosas falastrãs do vazio.
São irritadiças e descrentes do amor, muitas vezes e vivem fazendo testes de qualidade , para saber se "este" amor, desta vez traz o selo de garantia de durabilidade e intensidade. Ou se apaixonam vulgar e desmedidamente.
Como sei de tudo isto? É que sonhei e os sonhos são aulas poderosas, onde me informaram, que, como estou na proximidade de partir ... Ai de novo, para prestar contas das minhas mazelas, algumas informações a mais me seriam dadas. Claro, não passa de condescendência do meu pai ou meu superior celeste, para ver se eu volto melhor para o ajuste de almas complementares. Digamos que passo por um processo de lapidação.

Evolui muito neste período de solidão. Tive de me haver comigo e, juro, que quase me expulsei de mim.Sei que encontrei uma, ou mais vezes, por meio de uma energia, nem sempre palpável, que não me é dado identificar, minha alma gêmea neste espaço de turbulência que chamamos vida. Dai eu ter medo de avião e não tê-lo reconhecido. Eu estava tão magoada de saudades , que nele vi um estelionatário de ilusões.
Um dia estaremos juntos, nos moldes de uma forma perfeita onde, partes, formaremos então escultura em paz de plenitude. O todo em suspensão suave como não-ondas do Mar Mediterrâneo.

Como seguiremos a espiral da perpétua evolução seremos o mesmo todo e voaremos pelo infinito do eterno diálogo de corpo imaginário e espíritos completos, com identidades preservadas. Reajeitando-nos em formas mil, dependendo do ângulo de análise, do prisma de visão, sempre juntos, figura no relevo do fundo, fundo subindo e emergindo-se figura. As mil expressões que se nos apresentam e que chamamos arte, e que nada mais são, que a busca do conforto, do aninhamento ao molde perfeito dessas duas entidades que, pó de luz, tentam reagrupar-se no calor da atração gravitacional: o que chamamos de amor.

Por isto, chamam-nos almas gêmeas e viemos para aprimorarmos nossa estética na ética máxima da junção dos átomos da paixão, única forma que se conforma em beleza inexplicável, energia da junção das partes do amor de todas as cores..

Por isto minhas almas irmãs, mas não gêmeas. Se vocês virem uma alma vestida de sujeito do sexo masculino, um pouco ciumento, voz mansa e bote certeiro, sofisticado na indescritível ternura do olhar e no reconhecimento de um bom vinho, ainda que tal sofisticação esteja disfarçada sob uma dura expressão facial. Com certeza artesão e caçador do abstrato, mandão e terno, teimoso igual mula, obediente a um afago como um filhotinho de cão, não sei se pintor poeta ou cantor, dizendo palavras e expressões parecidas com as minhas. Para os que não me conhecem: chuva no telhado, cheiro de chão molhado,café da manhã, cheiro de maçã, gosto de saliva de alfazema, azul, muito azul, sexo louco e santificado, alma em paz mergulhando-se em carne, lençóis de algodão, roupa colada ao corpo molhado, folhas secas e voz do vento, sabiás e cachoeiras, mar em tempestade, digam que me acharam... E que estou pronta para o definitivo.

Bem pode ser que ele esteja num rodeio montado num touro, coisa que não consegui superar, ou numa tribuna falando ao vento. Aí vocês terão dificuldades em reconhecê-lo e eu a sina de uma espera maior.

Ah , digam a ele que consegui um alvará ou melhor , um título de gênero vitalício, que me concede para todo o sempre o direito de ser mulher, para sentir eternamente o peso do seu corpo imaginário ou não sobre o meu, que ventura maior não há para uma alma feminina, que é o sonho de receber sementes para só depois doar o fruto mais saboroso, que é maior que o gosto da sua saliva, sovada com maciez e firmeza pelos deslizes da da sua língua em minha boca.. Ou que nem suco de pitanga com umbu. E digam a ele também, que infelizmente tenho o defeito de fabricação de querê-lo só para mim, compensado pelos prazeres que só eu posso lhe dar, mas que, dos ciúmes amenizados, sobra-nos um orgasmo eterno, restando a ele completar o processo.

Por um amor aprendido estou pronta a esperar e voar ou mergular, em unicidade ao infinito que é muito pedaço de azul a multiplicar-se no caos
Elane Tomich
Enviado por Elane Tomich em 04/12/2013
Reeditado em 04/12/2013
Código do texto: T4598510
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Elane Tomich
Teófilo Otoni - Minas Gerais - Brasil
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