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Não quero saber nada além do que preciso saber para tratá-lo

No meio de um plantão tumultuado, como são os plantões de pronto socorro, chega um parente de um dos muitos pacientes graves e me fala:
"Doutora, não faça mais nada."
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Ela tinha a postura de alguém que sabia o que dizia, se vestia com um jaleco branco mostrando conhecer a área da saúde e tinha um olhar preocupado. Eu realmente fiquei confusa. Talvez não tenha entendido direito.
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O paciente, um jovem de 27 anos, estava entubado. Corpo magro, desnutrido, olhos sem brilho, em coma profundo induzido pela sedação.
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"Doutora, existem vários tipos de doentes, mas ele... Ele não quer se tratar, ele não se preocupa com ele mesmo... E só dá trabalho. Tem outros doentes que querem viver."
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Esse era um paciente soro positivo, e usuário de drogas ilícitas.
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Não é fácil ter um parente doente assim. Ainda mais doenças que colocam a vida de outros em risco. Pessoas que precisam ser buscadas na delegacia, no hospital, na sarjeta, que precisam de babá, que precisam de dinheiro, que precisam ser ouvidas. E que precisam de perdão continuamente.  Doenças que parecem ser curadas apenas com a força de vontade. Dá trabalho, dá muito trabalho mesmo.
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Mas nem por isso, deixam de ser doentes.
Parece fácil querer parar de usar drogas e usar o coquetel direito. Mas para muitos, não é.
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Enfim, eu poderia ouvir toda a história comovente sobre como era difícil e ingrato ser parente daquele doente, mas eu não queria saber. Não porque não me sensibilizaria por essa dor, porque sim, entenderia, mas porque não cabe a mim julgar isso.
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Quando eu era aluna, um dos meus melhores professores, recebeu em seu leito um paciente tuberculoso. Ele era um presidiário.
Lembro, que um de meus colegas perguntou "o que será que ele fez para estar preso?".
Meu professor respondeu de forma serena:
"Não quero saber nada além do que realmente preciso saber, para tratá-lo."
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Assim como não quero saber nada que me faça julgá-lo ou que me faça duvidar da necessidade daquele tratamento. Não quero saber se ele matou alguém, se matou a filha, se matou o pai, se roubou um pão, ou se bateu na mulher, porque se eu soubesse iria julgá-lo e odiá-lo, e isso não cabe a mim, na minha profissão.
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Minha missão é de apenas tratá-lo como trato qualquer outro paciente. Não cabe a mim, julgá-lo e condená-lo, para isso temos leis e juízes.
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E ficou ecoando em mim aquela frase: "... Tem outros doentes que querem viver..."
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Eu poderia entrar no mérito de dizer que cada ato de suicídio é um grito por socorro. Poderia dizer que assim como muitos outros vícios, como por exemplo vicio em sexo, cigarro, cerveja, comida, etc, aquele também merecia condescendência e tratamento.
Poderia dizer que assim como trato qualquer outro doente que não toma seus remédios adequadamente (hipertensos, diabéticos, infartados, asmáticos) e que não querem morrer, aquele paciente também merecia ser cuidado.
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Eu vejo dessa forma: a vida é um evento raríssimo! Portanto, a vida de cada pessoa é uma jóia a se preservar a todo custo!
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Cada pai, cada mãe, cada filho, cada irmão, cada amigo só tem essa vida para compartilhar com seus amados, para realizar seus sonhos, para saborear suas conquistas e chorar por suas frustrações, para ter segundas chances, ou ate mesmo para pagar por seus erros...
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Toda vida importa!
Jule Santos
Enviado por Jule Santos em 21/04/2015
Código do texto: T5215428
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Jule Santos
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Jule Santos