https://www.youtube.com/watch?v=vV_b2HGRlF8

A luz de mais um dia findava-se aos poucos. Dela quase não restava nenhuma nesga que oferecesse aos olhos uma visão clara de algum detalhe na paisagem. Esta pairava quieta, abraçando-se em alquimia perfeita com a penumbra da noite que célere avançava.

Sentada e sózinha em frente à luz de um abajour, as memórias eclodiam. Olhava pela fresta da janela enorme e altaneira. Via a noite recem chegada num esplendor de estrelas pontilhando a amplidão. A procura pela solidão era uma quase rotina. Fazia-lhe bem, acalmando, alimentando o pensamento que maturava saudável em busca de respostas. Fixava-o na família um tanto longe e seus olhos vagavam pelos móveis, parando nas prateleiras de livros, agora tão arrumados, diferentes de algum tempo atrás onde sempre estavam fora de lugar porque alguém, na pressa, pegara algum largando os outros de qualquer forma. Era uma desordem que não mais incomodava, fazia até bem a ela colocar tudo de novo na enorme prateleira da biblioteca, fato que agora já não era tão necessário. Foi então, que lembrando de algo, levantou-se e foi até a última delas. Pegou um livro amarelado, romance famoso que sempre gostava de reler. Abriu-o e folheando a esmo encontrou a folha garatujada, mal escrita. Eram notas de uma melodia antiga e romântica que alguém lhe passara. Como num passe de mágica espantou a inércia, atirando o livro para o sofá. Abrindo o velho piano que jazia num canto, executou a melodia, caprichando na performance como se uma platéia estivesse presente. Dedilhou nota a nota, espargindo pelo ambiente o som puro que soava quase perfeito e parecendo querer atingir o infinito. Assim embalou a alma olhando de vez em quando para a noite que permanecia calada e a lua longe espiando, quiçá ouvindo-a.
Sombras projetaram-se na parede e a hora passou., ela nem percebeu. Fantasmas do passado se foram com o riso que novamente deu ao envolver-se na canção. A cura para a hora da nostalgia havia chegado, novos sonhos haveriam de nascer. Ausencias não mais seriam dolorosas, eram apenas uma boa saudade, como a do dia que se fôra e a da noite que caminhava para ser o amanhã. Em nova realidade, escrevendo outra história poderia surgir bela e inedita melodia. Talvez...




26/05/15
 
Marilda Lavienrose
Enviado por Marilda Lavienrose em 26/05/2015
Reeditado em 27/05/2015
Código do texto: T5255986
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