Meu ipê amarelo

Na encosta de um vale, no alto de um monte calcinado pela insensatez das queimadas de julho, quando os arbustos se encontram mais secos e o frio deles tira o verde da esperança, pássaros desolados e silentes procuravam onde construir seus ninhos.

A cada ano que passara, eles viram maior a devastação das florestas em que seus pais viveram, sentiram escassear as frutas que os alimentavam, viram minguar a água do antigo regato que brotava da terra e descia o morro cantando por entre as pedras, resumindo-se agora a um pequeno sulco seco, contorcido e mudo.

Para a primavera que sabiam que se aproximava e que seus instintos indicavam ser o momento da continuidade de suas espécies, era necessário que construíssem os ninhos que agasalhariam e protegeriam seus filhotes. Contudo, naquele monte, onde todas as suas gerações haviam nascido, não mais existiam árvores com galhos fortes que os sustentassem, com folhas que os protegessem dos ventos e da chuva. Por isso, eles se fizeram mudos, não cantando o hino do amor em busca de suas companheiras.

E resolveram se quedar inertes, impassíveis ante o fim que sabiam inevitável. Resolveram deixar de lutar, abandonar a vida, pousados nos galhos secos do único tronco que restara do que, em outros tempos, havia sido frondosa árvore. Ali pousaram e se quedaram tristes, não só pelo fim de suas próprias vidas, mas pelo não nascer de seus filhotes, pela ausência das flores, pelo sol vermelho-alaranjado toldado pela fumaça das queimadas, pela insensatez dos homens que destruíram toda a vida ao seu redor.

E cantaram, não o canto de exaltação à vida que sempre cantaram, mas um canto triste de dor, de abandono, de desespero, em um réquiem de sabiás, juritis, pardais, canários e inhambus; até os periquitos e maritacas, sempre tão barulhentos, cantaram tristes e constritos acompanhando o pio soturno das rolinhas. E choraram....

Lágrimas furtivas brotavam de seus olhos, formando gotículas em seus bicos, umedecendo suas plumagens. E suas lágrimas desciam pelos galhos e tronco ressequidos, infiltrando-se no solo pelas raízes; gotejavam no chão, desaparecendo absorvidas pela terra escura e seca. E cantaram e choraram, e cantaram chorando, e choraram cantando, por dias, por noites, por meses, por estações, , .
Mesmo sabendo que nada mudaria, cantaram e choraram, choraram e cantaram, cantaram e choraram, por intermináveis dias, intermináveis noites, cantando e chorando, chorando e cantando, as lágrimas descendo pelas raízes, absorvidas no chão de granito. E assim o fizeram, por mais um dia, por mais uma noite...

Naquela noite, noite escura com nuvens cobrindo o céu, sem lua, sem estrelas, sem ventos, eles sentiram um leve tremor nos galhos em que se quedavam, um tremor crescente que, em outras épocas, os teria assustado, que os faria voar em fuga, porém se mantiveram em seus lugares, indiferentes, cantando triste e chorando por mais uma noite interminável e em que, afinal, se renderam exaustas e dormiram, profundamente, talvez em um prenúncio de seus últimos sonos.

Os primeiros raios do sol os acordaram, mas não como nos dias anteriores, em que já refulgia ameaçador, inclemente, abrasador; eles agora se filtravam tênues por entre folhas que balouçavam movidas por brisa suave e que os embalava nos galhos abundantes e viçosos, antes inexistentes ou ressequidos.

No vôo em que se alçaram quase que todos ao mesmo tempo, viram que, agora, todo o vale resplandecia de verde, entrecortado por riacho borbulhante que descia cantando do morro, brincando entre as pedras e cantando entre flores; e voaram, a princípio assustados, por um céu azul de nuvens brancas que formavam desenhos e brincavam com a brisa; e, no alto do monte, reinava soberano e imponente, destacado entre as outras árvores, você, o meu ipê amarelo que minhas lágrimas fizeram renascer e que abrigaria seus ninhos, suas vidas.
LHMignone
Enviado por LHMignone em 22/09/2005
Reeditado em 30/09/2013
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