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DESPEDIDA

Inicio de plantão noturno. Acabara eu de chegar para assumir o plantão de enfermagem na UTI. Uma atmosfera diferente pairava-se na unidade de trabalho, uma paz envolvente que escapava-me traduzi-la em palavras. Ouviam-se cânticos, suaves vozes femininas, como que um coro de anjos. Eram delicados mantras e canções de ninar, alternadas com cantigas de roda, como aquelas de crianças.
Diante do posto de enfermagem, no leito 13, estava uma simpática idosa, deitada, com seus traços de quem deambulou  muito nas estradas da vida, e suas rugas esculpidas pela existência. Encontrara-se intubada, respirando com auxílio de aparelhos, hidratada por soros, e demonstrava um semblante tranquilo e calmo, como que dormindo.
Era uma ilustre personagem conhecida de uma pacata cidade mineira, por seu caráter impar, e, sobretudo, pela sua caridade. Na verdade, tratava-se de seus momentos finais. As cantigas continuavam, e todos os funcionários estavam em dinâmico silêncio, como que em sinal de reverência e respeito, mas também deixando-se levar pela atmosfera de luz e gratuidade.
A postura da família irradiava confiança, nenhum sinal de desespero ou relutância. Era o momento de despedida daquela que fizera de sua vida um exemplo de dedicação e amor ao próximo.
Eis que as cantigas terminaram, entoadas por aqueles anjos em corpos humanos. Na verdade eram suas filhas, as quais a acompanhavam naquele singular momento
Observei o monitor de eletrocardiograma e, fato interessante, assim que terminou a delicada música, a paciente começou a bradicardizar lentamente até a condição de assistolia, onde o traçado se transforma num simples risco. Era o epílogo de sua vida. A simpática senhora já não mais pertencia a este mundo, partira-se em paz.
Não houve sinais de revolta, muito menos repugnância pela morte. Não houve manobras de ressuscitação, nem o tradicional "corre-corre", próprio das paradas cardíacas.
Tudo era paz. Somente Paz e bonança.
Saí mais tarde para jantar no refeitório, e olhei para o céu noturno, como sempre faço. Uma estrela diferente e brilhante se destacava no firmamento. Aí eu pensei, talvez as estrelas que brilham sejam, na verdade, almas que nos velam enquanto peregrinamos no exílio desta vida. E mais tarde, quando chegar o momento final, em que os ponteiros de nossos relógios pararem, também nos tornaremos estrelas.
Jamais esquecerei este plantão.
Paulo da Cruz
Enviado por Paulo da Cruz em 31/12/2015
Código do texto: T5496487
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Sobre o autor
Paulo da Cruz
Curvelo - Minas Gerais - Brasil
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