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A fábula do indiozinho.

EM MEIO À DOR, SURGIRÁ A CHAPE DO FUTURO
Um pequeno torcedor ajuda a entender a Chapecoense, jovem clube que ascendeu feito cometa, angariou simpatia, distribuiu leveza e jamais teve medo dos grandes

Para um indiozinho, tudo há de ser fábula. Time de indiozinho não perde. Time de indiozinho ganha e ganha e ganha - ganha tanto que precisa viajar lá para longe, ir a outras terras, tudo para continuar ganhando. Porque não há como explicar a morte ao indiozinho. Porque para Carlos Miguel Garcia, o Carlinhos, o mascotesinho da Chapecoense, tudo há de ser fábula – tudo há de ser vida.

Aos cinco anos, o indiozinho já sorriu um bocado – e vai sorrir um tanto mais. Seu nascimento coincidiu com os maiores momentos da Chapecoense – os títulos estaduais (em 2011, ia ao estádio na barriga da mãe), o acesso à Série B, o acesso à Série A, a permanência na elite, a ida à Sul-Americana, a vitória sobre o River Plate (então campeão da Libertadores), a vitória sobre o San Lorenzo, a classificação à decisão continental. É como se o indiozinho e a Chape crescessem juntos: ele espichando seu corpo, ela engrandecendo sua história iniciada lá em 1973, quando foi fundada.

No início, a Chape era o segundo time de torcedores do oeste catarinense. Hoje, as novas gerações já nascem torcendo exclusivamente por ela. É por isso que a fábula de Carlinhos se confunde com a história recente da Chapecoense, o clube do interior de Santa Catarina que subiu feito cometa ao convívio dos grandes. Em 2009, há menos de dez anos, a Chape estava na Série D do Brasileiro. Quatro anos depois, o clube vivia seu conto de fadas: garantia classificação à primeira divisão do futebol brasileiro.

E ela chegava para ficar – amparada por uma torcida apaixonada e por uma estrutura sólida. Na sua primeira participação, fez o mais importante: manteve-se na Série A, com a 15ª colocação. Na temporada seguinte, melhorou um pouquinho: 14º. Este ano, consolidou-se de vez – tem a nona posição na tabela. E sempre sob os olhos do indiozinho, que lá em 2014, com apenas três anos, apareceu com o time em campo e chamou a atenção do Brasil: era o carisma em pessoa – o carisma vestido de índio.

Carlinhos ajudou a moldar um dos pontos centrais da Chapecoense: a empatia. Nos últimos anos, não houve clube tão capaz de unir torcedores de camisas diferentes. Era como se as outras torcidas reconhecessem a fábula da Chape. Especialmente na Sul-Americana, ao ver um clube tão modesto medindo forças contra gigantes continentais, e sendo tão guerreiro, e encarando-os de frente, surgia uma aura de apoio. A Chape, de certa forma, simbolizou o futebol em sua essência – esse esporte maravilhoso em que diferentes se igualam, em que hierarquias são bambas, em que a fábula é possível.

Nesses anos de afirmação, ser antipático à Chape era um desafio complicado mesmo para aqueles que tombaram diante dela: o Palmeiras, goleado em 2014 (5 a 1); o Fluminense, também goleado em 2014 (4 a 1 no Maracanã); o Inter, goleado em 2015 (5 a 0).

Afinal, como criar bronca de um time que ri de si próprio? A Chapecoense angariou simpatia com senso de humor. Angariou simpatia com o torcedor que foi ao jogo contra o River Plate vestido de fantasma da Série B – o pequenino provocando o gigante argentino. Angariou simpatia com o torcedor que colocou uma faixa com os dizeres “Rumo a Tóquio” na Arena Condá. Angariou simpatia ao escrever no Twitter, ao fim de seu primeiro Brasileirão, em 2014, uma verdade incontestável: “Nunca fomos rebaixados”.

A imagem que a Chape criou, em tempos tão sombrios, foi de leveza, de graça, de diversão. É por isso que dói tanto a tragédia que vitimou 71 pessoas na Colômbia: pela contraposição entre o impacto dessa tragédia e a mensagem que o próprio clube sempre passou. É como se a Chape fosse proibida de chorar. De chorar e de fazer chorar.

Mas aí a gente respira um pouco e olha em volta. E vê o Atlético Nacional pedindo para que o título da Sul-Americana seja dado à Chape. E vê os clubes brasileiros se unindo para lhe ceder reforços e garantir, por acordo, que ela não seja rebaixada nos próximos anos. E vê tantos e tantos torcedores sofrendo a dor de uma torcida alheia. E vê o milagre da sobrevivência de Neto, de Follmann e de Alan Ruschel. E pensa no consolo supremo, no motor máximo da existência: que para cada morte haverá um nascimento; que para cada despedida haverá um encontro.

Nos próximos dias, a Chape velará seus heróis – dará adeus a Danilo, a Thiego, a Caio Júnior, a Kempes, a Cleber Santana, a todas as vítimas da tragédia. Também choraremos os nossos – 20 profissionais de imprensa morreram no acidente, entre eles nosso querido Laion Espíndula, setorista de Chapecoense no GloboEsporte.com. Mas o tempo, em algum momento, nos lembrará que a vida segue.

Aí a Chape voltará a campo. Haverá outros jogadores – e esses jogadores também serão aqueles que partiram; haverá um novo treinador – e ele também será Caio Júnior; haverá um novo goleiro, e as luvas dele terão as lembranças de Danilo.

E, acima de tudo, haverá a torcida. E na torcida haverá um indiozinho, essa criança de cinco anos que representa, sem saber, a enormidade do futuro que se avizinha.

Porque fábula de indiozinho só é fábula com final feliz.

por ALEXANDRE ALLIATTI
Arcanjjus Negrus
Enviado por Arcanjjus Negrus em 02/12/2016
Reeditado em 02/12/2016
Código do texto: T5841258
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Arcanjjus Negrus
Pinhais - Paraná - Brasil, 38 anos
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