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Crônicas da Amendoeira ( Recordar é viver )

     
     Os apelidos são nossa verdadeira epiderme. Por essência reveladores, eles costumam realçar os traços mais significativos de nossa personalidade. De coerência às vezes enviezada, mas coerência, é mais democrático que o próprio nome, pois seu batismo é feito na rua com ares de plebiscito e aclamação final. Do contrário, não pega, e nos deixa perambulando por aí como órfãos de nós mesmos. Um apelido bem encaixado é um mata-borrão em nossa certidão de nascimento. Mas nem sempre agrada aos seus portadores e, nesse caso, é condição sine qua non para que ele vingue e vá se amoldando ao corpo do dono de uma forma definitiva.
Pret-à-Porter, por exemplo, detesta os apelidos, apesar da alcunha que o popularizou em Rio das Ostras. E é sob o seu véu que esconde o nome como um autêntico Anjo Negro da Pirâmide. O mesmo ocorre com meu diletíssimo amigo Bill. Levei vinte e tantos anos para conhecer o segredo sussurrado em sua pia batismal.
Mas nem sempre os apelidos são recebidos como uma graça. Entrando no túnel do tempo, havia em Nova Iguaçu um mecânico de alcunha " seu gambá". Ao chamado, enchia os pulmões:
 - Seu gambá é a puta que o pariu!
Era, assim, ovacionado por todos, especialmente pela criançada que passava correndo pela porta da oficina: seu gambá! seu gambá! seu gambá!
Numa ocasião, estava eu e o Sérgio Fonseca - grande poeta e compositor da Baixada - na oficina,vendo um problema no meu carro, quando entrou um senhor muito alinhado. Dirigiu-se ao Sérgio:
 - Bom dia, cavalheiro! Por favor, quem é o seu tamanduá?
Não deu tempo nem para rir. O mecânico saiu de debaixo do carro, limpou a mão numa estopa suja de graxa, olhou o recém-chegado com olhos apertados e disse:
 - Não é seu tamanduá não, meu senhor! É seu gambá. Mas seu gambá é a puta que o pariu!
Dito, bateu em retirada para o escritório. Às gargalhadas, Sérgio Fonseca puxou-me para o bar em frente. Ante a iminência do conserto demorar mais um pouco e convencidos de que a coisa ainda ia feder, melhor esperar molhando as palavras com uma bem gelada. Tentando segurar o riso que já lhe encharcara os olhos de lágrimas, Sérgio Fonseca voltou-se para o senhor, ainda lívido pelo susto:
 - Liga não, meu senhor! É assim mesmo, mas ele já volta!
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 05/08/2007
Código do texto: T593586

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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
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Aldo Guerra