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O que não mata ensina


          Amanhecia mais um dia na cidadezinha de Comum (já falei dela aqui). Alguns galos cantavam aqui e ali acordando os habitantes e as galinhas. O menino se espreguiça na rede e pensa nas obrigações do dia. Escovar os dentes, banho, desjejum, não estavam entre elas. Só iria comer o seu feijãozinho com farinha lá pra meio dia, hora da única refeição diária. Antes disso tinha que andar alguns quilômetros pra conseguir um pouco de água salobra e ir mapeando o caminho, vendo onde havia algum galho seco que teria de voltar para buscar, se não não haveria almoço. As brincadeiras com outros meninos pelo caminho amenizavam a dura caminhada.
          Mais tarde iria levar o cavalo do ferreiro para banhar num riacho lamacento e quase seco. Era o seu melhor momento e também o mais perigoso. Um dia o cavalo (enorme, que era usado para arrebanhar o gado) desembestou na volta pra casa e só não houve tragédia porque o anjo da guarda do menino estava “atento e operante”.
          Moravam juntos, ele e o velho pai, que apesar de velho e doente, conseguia sobreviver naquele ambiente inóspito cultivando uma nesga de terra cedida por um rico proprietário da região. Entenda-se por “rico” alguém que possuía uma pequena fazenda e algumas rezes.
          É necessário dizer-se que não era tudo tristeza, havia também momentos em que a vida não era tão dura. Quando se encontrava livre de obrigações, costumava ir para uma bodega ouvir as conversas dos adultos e rir dos “causos” que contavam.  À noite formava-se uma roda na calçada dos vizinhos onde se contavam estórias de assombração, que depois o acompanhavam até sua rede em forma de pesadelos. Vez por outra apareciam duplas de repentistas ou algum tocador de fole. Aí era uma festa.
          A maior felicidade mesmo era conversar com a moça mais bonita do lugar. Tinha uns olhos de gata com grandes pestanas curvas e espaçadas. Era bem mais velha que ele e só lhe dava atenção porque o menino antes morara na cidade e ela tinha grande curiosidade em saber como era viver lá. Enquanto a ouvia falar ficava olhando para aqueles lábios carnudos e imaginando como seria bom tocar com sua boca neles.
          Afora isto, dois outros momentos de alegria: O dia em que caía a primeira chuva e o dia da primeira colheita de feijão e milho, mas isto já é outra estória.
Jota Garcia
Enviado por Jota Garcia em 02/12/2017
Reeditado em 02/12/2017
Código do texto: T6188101
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Jota Garcia
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 83 anos
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Jota Garcia