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Apanhador de Sonhos

Uma gota vertia em meu rosto, era amarga. Na sala de estar, pairava um inconstante silêncio mundano, interrompido pelo vento forte no final da tarde. O filtro de sonhos rodopiava e prendia as próprias penas em si. Espantava meus pesadelos, mas trazia de volta os meus agouros da adolescência. Havia beleza naquele momento, havia desespero. Pela primeira vez em vários meses, eu havia experimentado a solitude. Era um nó apertado na garganta.

Toda essa correria absurdamente vertiginosa ansiava cobrir a minha sombra. Eu sentia constantemente um denso oceano avolumando-se dentro de mim, desolando tudo o que eu que havia feito. As dores vinham em ondas. Diziam que um furacão estava vindo aí, que ele arrebataria todo o resto. Você me dizia que gostava de ficar acordado à noite para ouvir o som da tempestade. Eu ignorava o medo do mundo e ficava contigo naquelas noites escuras. Eram sons profundos, abafados pela maresia e bucolabialidade da estação, misturadas com aquela correria de viajar tanto para ver o mar apenas por umas noites. Todos os outros sons pareciam superficiais demais para valerem nossa atenção.

Eu não tinha mais ideia do que era real e imaginário, do que eu trazia comigo ou só inventava quando apropriado. Toda minha vida eu senti uma ânsia estrangulante, envolvendo minha garganta e arrancando-me da quietude. Meu inferno já ardia há muito tempo. Contigo, as chamas haviam congelado por um tempo.

Estar ali, contigo, era estar comigo. Eu sou um eterno exilado, um peregrino, um cidadão de algum outro lugar ainda não visto. Tudo o que vejo não passa de pequeno brilho em um espelho. Um reflexo ainda não conscientizado por mim.

Essa força que tu me trazias era saudosa, branda, clara. Eu não podia me desapegar de você. Nossas conversas incompletas alongavam-se na margem do abismo de brigas, palavras não ditas e lágrimas não derramadas. Eu desistia sempre. Abandonei todos os barcos que me levavam a ilha da razão só por mais dois minutos contigo, encarando teus olhos tão verdes que me perdia em sentidos.

Amor? Não. Era apenas um querer estar ali, querer bem por uns momentos e depois ir viver a própria vida. Mas havia algo preso no fundo do mar, um monstro que relutava em ficar preso. Eu o mantive lá por medo de ser mais forte do que eu, mais complexo.

E eu o deixei lá. Abri mão de todas as conversas e não quis comentar. Não havia nada a dizer. Foram muitas tempestades e muitas noites penosas. Eu sabia que tu só me chamavas quando estava triste, quando estava bêbado ou chapado. Eu continuava descrevendo aquele círculo sinuoso e frágil, pois sabia que chegaria no mesmo lugar que antes. E para mim, isso bastava, era o suficiente. Eu passaria o restante da viagem de volta em silêncio para não quebrar essa distopia de minha mente.

Isso tudo que você me descreveu, é algo ainda incerto dentro de mim. Eu só faço questão em lembrar para tentar decifrar teus enigmas, percorrer novamente tua pele, revoltar seus cabelos pretos. Estou cortando esses sentimentos, desfiando esses nós e desapertando as amarras justamente para não os esquecer. É tudo necessário. Por um equívoco, uma escolha estúpida, tu foste a minha pior escolha, meu maior medo. Hoje, ainda é um pesadelo que faço questão de ter.
Samuel Silva
Enviado por Samuel Silva em 07/12/2017
Código do texto: T6192842
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Sobre o autor
Samuel Silva
Vitória da Conquista - Bahia - Brasil, 22 anos
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Samuel Silva