Suco de maracujá

Estava eu cá novamente, de frente ao papel. Sempre achava que seria meu último texto, mas, confesso não querer que seja. Essa ideia me apavora, afinal eu sou um texto em cada momento.

Fim de ano, tantos assuntos dariam uma crônica, tantos flagrantes, tantas brigas e acontecimentos, tantos planos não realizados, mas, hoje estou sem inspiração. Os olhos fixos no papel, as linhas não seguiam, pairavam nas letras incompletas. Vencida pela exaustão, inclino a cabeça e tomo um gole de suco. Enquanto o gosto doce e azedo do suco se misturam junto a minha saliva, percebo um tom de voz masculina se alterar no fundo da lanchonete. Uma senhora, já com seus 50 a 60 anos, não sei dizer, na verdade os traços marcados em seu rosto não deixavam certezas, traziam marcas de muita luta e sofrimento. Sua fisionomia parecia cansada, mas era um cansaço além do físico. Depois de solicitar um pedido ao garçom e não ter sido atendida, retrucou:

-Quero um suco? Não tem ninguém para me atender? Será que estou invisível?

- Deixe de confusão, sua doida! Respondeu o garçom com um ar desaforado.

A voz do garçom, trincava em meus ouvidos... ele não queria atendê-la. Simples. Perdão, esqueci de dizer. A senhora tinha um aspecto rude, vestia uma saia longa um pouco desbotada, com lenço na cabeça e um chinelo de couro...parecia ter chegado de viagem, pois trazia uma mala enorme e muitas sacolas. Fiquei pensando, como aguentara trazer tanto peso, deveria está só, pois não vi ninguém ao seu lado. Porém, não via motivo para o garçom não atender ao seu pedido.

A confusão se perdurou por alguns minutos, a senhora não saiu do balcão até que a dessem o tal suco que pedira. Alguns a olhavam com ar de desprezo e rispidez. Ela ignorava a todos. Por fim, trouxeram o suco pedido e, ela se degustava com cada gole, parecia está com muita sede daquele suco. Observando-a, escutei um comentário que fez bem baixinho.

- Só mesmo um suco de maracujá para acalmar meus nervos, diante de tanto olhar torto sem motivo.

Sorri, quando a ouvi. Coincidência ou não, tínhamos o mesmo gosto. Notei que ela tinha um álbum de fotografias, o qual não parava de olhar. Notei também que entre um sorriso e outro, uma lágrima surgia em seus olhos, bebia o suco como quem sugava a vida, e cada gole de suco disfarçava o nó que se evidenciava em sua garganta. Sorrio docilmente. Aproximei-me da mesa e perguntei se eu poderia me assentar ao seu lado, ela olhou-me vagarosamente e respondeu, que eu poderia, mas quis me prevenir dizendo que todos ali me olhariam torto. Eu respondi que não me importava, também tomei suco de maracujá. E, juntas sorrimos!!!

Tomamos outra jarra de suco juntas, e, juntas descobrimos que não tínhamos só uma coisa em comum, outras afinidades surgiram. Ela agradeceu a boa prosa, e disse que precisa ir, havia algo muito importante a fazer... precisava encontrar seu caminho. Nos despedimos, e fiquei olhando-a até que cobrisse a esquina da lanchonete...

Não sei o que lhe aconteceu, não a vi mais, isso já faz alguns dias, espero que tenha encontrado seu caminho...

Entrei naquela lanchonete, e lembrei do suco de maracujá e daquela senhora. Virei meu rosto procurando algo que me inspirasse a escrever e num poste de luz ao lado da lanchonete, notei um inscrito:

"O essencial é invisível para os olhos, só se vê bem com o coração"

(Antóine Saint-Exupér).

Didimari Santana
Enviado por Didimari Santana em 17/12/2017
Reeditado em 03/03/2018
Código do texto: T6201505
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