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                  Eu e o meu pintassilgo

    1. Meu pintassilgo cantava o dia todo. Eu tinha por ele uma amizade sem tamanho. E ele parecia me entender, pois, era só me ver, abria o biquinho, e soltava alegres e demorados gorjeios! Nesse tempo, eu morava numa casa com jardim; ele tinha, portanto, muito espaço pra cantar.
     2. Um dia, pelo telefone, avisaram-me que ele acabara de morrer. Deixei o escritório correndo. Quando cheguei em casa, encontrei-o estendido no chão frio da gaiolinha que, durante anos, lhe servira de morada.
     3. Não ouvi o seu último canto. Por isso, não sei dizer se foi um canto de dor, ou de saudade... De indignação? Talvez.  No derradeiro minuto de vida, um pipilo de protesto contra a prisão que  eulhe impusera, apesar da  gaiola prateada, da água cristalina e do alpiste da melhor qualidade que sempre lhe oferecera.
     4. O pintassilgo é um pássaro pequenino, frágil e colorido.  Mede de 11 até 13 centímetros. Uma curiosidade: as fêmas são reconhecidas porque as cores - amarelo, amarelo esverdeado, preto e negro acinzentado - de suas penas, de suas asas, do seu bico e de suas pernas - ao contrário dos machos, são menos acentuadas! O pintassilgo macho, portanto é mais  bonito...

    5. Enterrei meu pintassilgo no jardim de minha casa, debaixo de uma cheirosa e imponente trepadeira. No mesmo jardim, estavam enterrados um cardeal, um periquito australiano, um canarinho belga e um hamster que, com suas traquinagens, alegrava a infância de Paulo Fernando e Adriano, meus filhos. Fazia perigosas acrobacias numa minúscula roda-gigante de arame. Cansei de parar, para aplaudi-lo.
     6. No meu jardim eu tinha um jasmineiro, uma espirradeira, uma imensa buganvilia e um frondoso flamboayant. O flamboayant, além de dar acolhedora sombra, à noite, hospedava dezenas de rolinhas, sonhaços e bem-te-vis.
     7. Vendi minha casa, que foi imediatamente, derrubada para dá lugar a um edifício. Compungido, acompanhei as máquinas da impiedosa Construtora desmanchá-la, sem dó nem piedade. Em poucas horas, minha buganvilia desapareceu; e também minha espirradeira, meu pé de jasmim, e o meu flamboayant. O "cemitério" dos meus passarinhos foi impiedosamente soterrado.  
     8. Sou um velho passarinheiro. E continuarei a sê-lo. Não adiantam as críticas que recebo dos amigos e dos inimigos;  algumas, confesso, até me levam a pensar no meu santo protetor. Mas São Francisco de Assis me conhece.  Sabe que, como ele, também amo os pássaros, estejam eles nas gaiolas ou fora delas; soltos no mato.
      9. A verdade, entretanto, tem que ser dita: meus passarinhos nunca se mostraram descontentes em suas gaiolas. Nunca fizeram greve, nem de fome, nem de canto. Meu sabiá, passaro difícil de ser criado em "cativeiro", alta madrugada, fazia belíssimas serenatas!
     10. Sem ligar para as críticas, venham elas de oude vierem, vou continuar na companhia dos meus canários, dos meus galos-de- campina, das minhas graúnas, dos meus curiós. 
     11. É melhor viver no mundo dos pássaros, já dizia Rubem Braga, um passarinheiro assumido; porque, completava o Sabiá da Crônica, "anda feio o mundo dos homens!".
     12. Ah, os passarins! Cantam, cantam, de repente entristecem, se calam e morrem... 
         Bom seria que eles nunca morressem...       


 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 23/08/2007
Reeditado em 28/08/2017
Código do texto: T620516
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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