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Desistentes Anônimos

      Ele chega em casa cambaleando. Tenta tomar mais um gole, mas a garrafa já está vazia. Rimos. Gasta uns 10 minutos tentando enfiar a chave na fechadura, tempo suficiente para surgirem todo tipo de comentários. “Está podre de bêbado”, começam. “Forte e saudável, podia muito bem trabalhar”, dizem. “Trabalhar pra quê, se os filhos o sustentam?” alguém pergunta. “É um vagabundo”, concluem. Mas por trás disso tudo há uma história, que pode ser bem parecida com a sua. Por trás do vizinho que chega bêbado todas as noites, numa rotina patética, existe um desistente que, um dia, foi anônimo.

      Todas as noites os desistentes anônimos voltam para casa. Eles tiveram dias sem graça. Dias vazios de sentido, mas cheios de angústia. Alguns trabalharam e alguns não fizeram nada. São gente comum, como você e eu, abandonando planos, amores e sonhos. Onde ficou mesmo aquele projeto de trabalho independente que lhe traria mais liberdade e satisfação? Ah, sim, você deixou ao lado da primeira pedra no caminho. E o que aconteceu com as juras de amor eterno? Era muito trabalhoso cultivar o amor todos dias. E aquele sonho de conhecer a Grécia? Era um sonho bobo, não ia acontecer mesmo. Mas você está jogando a vida fora! A vida não é lá tão interessante..

      Eles seguem por aí, deixando um rastro de coisas inacabadas, escolhendo o caminho mais fácil, desistindo de tudo que lhes exige esforço. Lidam com isso das mais variadas formas. Alguns bebem, outros choram. Há também aqueles que fingem não ser desistentes. Quando menos se espera, nasce um desistente anônimo. É rápido e fácil, afinal, qualquer um pode ser infeliz, não é preciso coragem nem luta, só é preciso aceitar.

      O nosso julgamento diz que o vizinho bêbado é um vagabundo, que o parente com depressão é um fraco, que aquele conhecido que tentou cometer suicídio só pode ter problemas psicológicos. Mas, na verdade, estes são apenas desistentes em estado avançado. São aqueles que desistiram da vida, aqueles que deixaram de ser anônimos. Preste atenção, talvez você já seja um desistente anônimo, caminhando à passos lentos para o mesmo destino. Você nem acreditaria, se eu te dissesse, no quão perto estamos de nos igualar à eles.

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Évelin Menegotto
Enviado por Évelin Menegotto em 05/01/2018
Reeditado em 05/01/2018
Código do texto: T6217706
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Évelin Menegotto
Bento Gonçalves - Rio Grande do Sul - Brasil, 31 anos
14 textos (879 leituras)
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Évelin Menegotto