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CACOS DE VIDRO

Ela derrubou o aquário e ficou assistindo a agonia do peixe que habitava aquele espaço se debatendo no chão, enquanto seus pensamentos voltaram-se para seus conflitos internos. Dentro de si, seu “eu” se debatia como aquele peixe enquanto a vida se esvaia...
Suas alegrias? Sempre passageiras, momentâneas... Até um pouco vazias. Se havia algum sentimento que conhecia bem, era a tristeza. Convivia com isso, mais que com qualquer outra coisa, e sua dificuldade de falar, isso era seu carrasco!
Era como um punhal incrustado em seu peito.
Quando conseguiu concluir seu curso técnico, não conseguiu empregar-se por meses, quando conseguiu iniciar uma graduação, não conseguiu manter-se, o contrato empregatício encerrou, quando fixou-se novamente na mesma faculdade, descobriu traições e seu namoro chegou ao fim, quando iniciou um novo relacionamento, emprego e faculdade, teve problemas com seu pagamento por meses...
Estava sempre se debatendo entre uma questão e outra... Sempre. Em seus relacionamentos, sua personalidade difícil sempre acabava por criar atritos... Sempre. Era ela mas não era. Descrevia para si mesma como um ser que a habitava. Era a sua metade má. Essa metade má, às vezes, assumia o controle para sabotar sua felicidade, justamente porque tinha que existir alguma coisa errada. Tinha que estar infeliz por algum motivo.
 E pensando bem, talvez ela não fosse a única culpada. As coisas aconteciam para roubar sua alegria. E isso não era sempre causado por ela. Até se esforçava por vezes, mas o emprego, os estudos, os relacionamentos, sempre um ou outro estava por um fio.
O pior é que isso desencadeava uma série de problemas ainda mais difíceis de serem solucionados. O que a levava a crer que a vida estava de sacanagem. Só podia ser isso! Foi deixando de acreditar, deixando de ver a vida com olhos de menina leitora de romances, deixou o modo Pollyana de viver de lado, para dar espaço a um ceticismo incrível!
Se algo bom estava por vir, não esperava. Sua resposta para a vida era um rosnado mal humorado. Assim, o que viesse de bom, seria lucro, uma vez que não esperava nada.
Era mais fácil assim. Funcionou por um tempo. Mas aí, sua fraqueza a fez fraquejar, foi perdendo as forças no meio do caminho, foi deixando a dor tomar espaço, e só percebeu quando se viu como aquele peixe, se debatendo sozinha enquanto a observavam lutar pela sobrevivência.
“Vamos ver até onde ele vai. Vamos ver quanto ele se debate até desistir. Veremos quando ele cansar, o que será dele...” Falou baixinho, mais para si mesma do que para o peixe aos seus pés. "E se ele demorar para morrer por falta da água? Vai ficar agonizado... Vai sofrer. Ah, mas os cacos de vidro podem fazer o serviço. Nesse caso, ele vai se debater sobre o vidro que vai acabar por perfurá-lo, e morre. Que ideia ridícula! Isso é o menos provável... Pra que ele luta tanto? Para voltar a um aquário? Que sentido isso tem? Viver em uma redoma de vidro, onde tudo se é limitado... hunf! Isso não parece nada divertido! Ele come quando alguém põe comida, nada dentro desse espaço curto, tem seu aquário limpo conforme a disponibilidade de alguém que limpe... Por que, então, ele quer continuar vivo?”  Não conseguia enxergar sentido nisso. A insistência do peixe em se debater, fez com que ela o recolhesse em um novo aquário com água.
“Talvez seja isso... Ele não estava sozinho perdido em sua luta pela sobrevivência. Eu estava aqui, observando, e o trouxe de volta. Eu o devolvi para o aquário. Dei-lhe o que era necessário para acabar com sua agonia.”
Talvez fosse isso o que a vida esperasse dela, que se debatesse inconformada, que desejasse sobreviver, que entre seus cacos de vidros, encontrasse um motivo para continuar a viver.  Os cacos de vidro traziam a emoção que precisava para que persistisse, para que se superasse... Ao invés disso, ela desistia... “Então é esse o erro! É esse meu pecado! O que a vida quer de mim, é ser vivida!”
Sorriu para o peixe agitado no aquário, de um lado para o outro, e saiu decidia a viver.
Théo Augusto
Enviado por Théo Augusto em 13/01/2018
Reeditado em 13/01/2018
Código do texto: T6225215
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Théo Augusto
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 29 anos
10 textos (376 leituras)
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Théo Augusto