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     Há uma epécie de compulsão da qual não consigo me livrar. Bem dizendo, preciso que o cérebro vigie a mente (ou seria o contrário?) para que eu não caia na tentação - por exemplo - de ler pelo avesso tudo o que vejo na rua. Outdoors, letreiros de fachadas comerciais, propagandas em veículos. Caco-laco. É coisa de louco, eu sei, mas não me lembro de ter afirmado a minha completa sanidade por aqui. Fecho os olhos, conto até dez. Penso numa música "chiclete". Quase sempre funciona. Mais um ponto, e o ônibus pára. Alguns segundos depois, está em movimento novamente. Estou livre. Pelo menos por enquanto. Em troca, a belíssima voz de Marisa Monte me tortura com "Amor, I Love You".
     Marília está ao meu lado, alheia a tudo isso. Combinamos ir ao parque, bem cedinho. Alugaremos bicicletas e, depois de um lanche, talvez um cachorro quente, descansaremos sob a sombra de uma árvore. A vida fica bem mais ou menos quando decidimos, tão somente, viver.
     Mas a minha coleção de esquisitices tem várias peças. Uma delas é não conseguir ficar alheio a nada que esteja escrito. Há alguns anos inventaram um adesivo de muito mau gosto: CORNO É ASSIM, QUER LER TUDO O QUE VÊ. Queriam me ofender, sem dúvida. Um outro, que insistiam em colar nas latas-velhas, dizia: SAI FORA, OLHO GORDO! Esse, tenho certeza, nunca foi pra mim.
     Dizia eu que coisas escritas desafiam os meus olhos. É inevitável. E o amor, ao contrário da amizade, não entende essas coisas. Por isso Marília ficou tão incomodada quando me percebeu olhando para a moça ao nosso lado. Na camiseta dela, à altura dos seios, algumas letras formavam palavras que por sua vez suplicavam ser lidas. Era uma camiseta vermelha, com letras prateadas. Não sei se acontece a todo mundo, mas esse tipo de contraste me incomoda demais. Precariamente, tentava dar sentido às palavras, por entre as dobras do tecido e o relevo generoso dos seios da desconhecida: RAMPA... EXISTE... NÓIS(?)... PAGODINHO...
     Minha namorada, que estava sentada na janela, pulou por cima de mim e foi parar no corredor. Completamente transtornada, começou a me xingar enquanto anunciava que desceria do coletivo. Em voz baixa, disse a ela que estava enganada. Simplesmente estava interessado na mensagem da camiseta. Em troca, ganhei uma bela bofetada. Meio zonzo, ainda escutei a sua voz, já do lado de fora "Patife!" enquanto o ônibus partia e a deixava no ponto.
      A menina ao lado achou tudo muito divertido. Parecia bem humorada, sobretudo com as desgraças alheias. Mas escutara tudo, inclusive a minha explicação. Solícita, me cutucou e esticou a camiseta para que eu finalmente pudesse ter paz. Estava escrito, pude ler com alguma dificuldade: AINDA EXISTE AMOR EM SAMPA, NÓIS É QUE NÃO TEM BIGODINHO. Acho que mereci aquela bofetada. Ler é uma coisa, compreender é outra. Por isso, se alguém por aí sabe o significado dessa mensagem -talvez subliminar - na camiseta da desconhecida, por favor, me diga. Pensando bem, deixa pra lá.
GUSTAVO ARAUTO
Enviado por GUSTAVO ARAUTO em 13/03/2018
Reeditado em 28/08/2018
Código do texto: T6279108
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Sobre o autor
GUSTAVO ARAUTO
São Paulo - São Paulo - Brasil
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