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          Frei Damião de Bonnzano
                           ...crônica nordestina
                                                   
     Espalharam por aí, que todo cearense deve, pelo menos uma vez na vida, escrever alguma coisa sobre o padre Cícero Romão Batista e sobre frei Damião de Bonnzano.
    Ciente ou consciente desse "dever", aqui compareço, como um legítimo cabeça-chata, disposto a alinhavar uma pequena crônica sobre famoso frade capuchim.

          Não  conheci frei Damião pessoalmente, apesar de ter percorrido inúmeras cidades do sertão do Ceará, de Pernambuco e da Paraíba, Estados que rezaram com o saudoso franciscano. Mas nasci ouvindo falar de suas rigorosas desobrigas, e, principalmente, de seus surpreendentes "milagres".
          Sei de numerosas e impressionantes histórias de curas que lhe são atribuídas.Tenho um amigo pernambucano, que, seriamente enfermo, gastou uma fortuna com renomados médicos cariocas e paulistas e continuou enfermo.  Só ficou praticamente curado depois que recebeu, no seu leito de hospital, a visita e a bênção do seu "amado capuchinho".
          Entrando no nordeste, mais precisamente a partir de Petrolina, o retrato de frei Damião é  visto nos terminais rodoviários e nos botecos de beira de estrada.  Músicas regionais são ouvidas, ressaltanto a figura e as virtudes do velho missionário.
     Seu retrato é também colocado, com destaque, nas salas de visitas, nos quartos de dormir, e nas cozinhas das casas nordestinas.  Vi isso, quando, a caminho de Fortaleza, passei por Salgueiro, Cabrobó, Orocó, em Pernambuco; e no Icó, Brejo Santo, Milagres e no Barro, no Ceará.

          É difícil encontrar uma família do nordeste que não tenha um Damião ou uma Damiana.  Nas capelas nordestinas, na hora dos batizados, quatro das dez crianças que são levadas à pia batismal, recebem o nome de Damião ou Damiana.
     Tão grande era, naquelas plagas, o  prestígio do virtuoso frade que Luiz Gonzaga, o Rei do baião, confessou, publicamente, o seguinte: "Se frei Damião fosse sanfoneiro, eu taria lascado."

          Frei Damião não se envolvia em política. Todavia, políticos - carolas, ateus e agnósticos - andavam léguas para lhe pedir proteção; o que jamais lhes foi negado, independente do partido do candidato travestido de seu "devoto". 
          Há muita coisa bonita para se dizer, se ler e se escrever sobre frei Damião. A literatura da região sobre ele é farta. Cordelistas famosos cantaram e enalteceram o seu fecundo trabalho evangelizador, desenvolvido em quase um século de pastoreio.
     Conservador até a raiz do cabelo, frei Damião, entre outras coisas, era contra o beijo na boca; mulher usar calça comprida; a dança; a pílula; e, no final do século 20, ainda acreditava na existência do inferno!
          Expressava seus curiosos pensamentos com determinação, e sem  de meias-palavras.
     Eis alguns: O demônio - "O demônio existe; entrei numa casa abandonada, e ele me jogou sete pedras."

         O inferno - "No inferno, só há sofrimento. Lá, o calor é bilhões de vezes pior que no Nordeste. As labaredas sobem e queimam sem parar o corpo dos adúlteros, dos efeminados, dos criminosos. Lá é o lugar onde vive o demônio." 
          A dança - "A dança é um elemento de perdição. Quando um homem e uma mulher se juntam para dançar, não pode sair nada de bom nisso tudo. Então sobrevêmos maus pensamentos, os desejos pecaminosos, o pecado."
          O beijo - "O beijo dado no rosto da namorada, como um beijo dado numa parenta, não tem nada demais. Agora, um beijo na boca, um beijo na língua, isso não, é pecado."
          A minissaia - "Não usem minissaia. A minissaia não presta. É uma rede de que se serve o demônio para pegar os homens. O demônio está enganchado na minissaia das mulheres. Muitos homens perdem a cabeça por causa dessas modas exageradas."
          O concubinato - "Uma pessoa que vive com outra sem casar, estará no inferno de cabeça para baixo."
          Todo esse radicalismo não impediu que frei Damião figurasse - ao lado de padre Cícero, do Beato Zé Lourenço, de Antônio Conselheiro, do padre Ibiapina e de frei Vital - como um dos chamados "Profetas do Nordeste".  
     Se seu prestígio era enorme quando ele ainda caminhava pelos distantes lugarejos do nordeste brasileiro, depois de morto, é sem limite a devoção dos que o reconhecem como "um homem santo".

          Frei Damião nasceu na cidade italiana de Bonnzano, no dia 5.11.1898.
          Foi ordenado sacerdote em 5 de agosto de 1923. Em 1931, desembarcou no Recife, onde morreu, aos 98 anos, no dia 31 de maio de 1997.
     Quem desejar visitá-lo, este é o seu endereço: o chão da capela de Nossa Senhora das Graças - Convento de São Felix - Bairro do Pina, Recife.

          Escrevi poucas e modestas linhas sobre frei Damião, o "santo" que o nordeste inteiro venera. Terei, afinal, cumprido, a contento, o meu dever?



    

 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 29/08/2007
Reeditado em 31/10/2014
Código do texto: T629902
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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