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Fugindo do "Negão" black power?

Aquela até parecia está fadada a ser mais uma simples tarde de quarta feira, se não fosse pelo fato de, acompanhado por outros três amigos, decidirmos largar o marasmo de nossas casas e nos deslocar ao shopping. Uma desventura entre garotos, assim era possível definir, ansiosos pelo que, não se sabe ao certo, talvez apenas a fim de assistir alguma produção barata em cartaz na época. Digo barato, contudo confesso, não recordo bem o conteúdo e menos ainda o título, mas deduzo que era péssimo, já que na saída, o quarteto estava nitidamente desanimado. O filme em questão não importa muito, relevante mesmo é que chegara a hora de tomar o rumo de volta para casa, não havia mais nada a fazer ali... Será?

Durante um pequeno trecho, logo na saída do xops, havia uma ponte com uma estreita passagem que servia para o trafego entre os pedestres, não muito extensa é verdade, podendo ser percorrida “de pé” em poucos instantes. Peço que não estranhem a amostra de ignorância que se fazia presente ao balburdiar tal expressão, até porque incomum mesmo era a quantidade de amêndoas ali despejadas sobre o assoalho. O fato até passaria despercebido, se o Tuca - um de meus amigos -, não tivesse sido vítima da brilhante ideia de atirá-las dentro do primeiro ônibus que cruzasse a ponte.

E para variar, fui o escolhido! Só não sei se por ter a melhor pontaria dentre os demais da “trupe” ou simplesmente, por ser o único idiota o bastante– OPS – com coragem para concretizar propósitos tão sórdidos e banais. Não posso mentir, seja qual for o motivo, a amostra de “reconhecimento” mexeu com minha vaidade, e acabei aceitando a incumbência, embora os elementos restantes do grupo - lhes apresento Luide e o Carboidrato -, a censurassem drasticamente, usando inclusive de argumentações bastante razoáveis, acerca de todo o “perigo que tal brincadeira poderia trazer para nós”.

Sem dar importância ao que pensavam, parei em meio à ponte aguardando a chegada do ônibus, pronto para por em prática a ação. Carboidrato continuava emburrado, já Luide relutou um pouco, mas acabou se rendendo à brincadeira – e que brincadeira! Logo o primeiro coletivo cruzava a ponte. Enquanto aguardava, impaciente por sua chegada, segurei nas mãos a maior amêndoa entre as outras, escolhida minuciosamente. Então em posição, preparava-me para enfim desferir, com técnica, força e absoluta precisão, uma pequena bola de canhão que tinha endereço certo. Precisamente quando a metade do transporte passava por mim, arremessei!

Aquela altura me sentia o maior lançador de todos os tempos do beisebol, o estádio inteiro delirava aos meus pés, pareciam seduzidos por minha amostra de habilidade e destreza, o objetivo era simples, fazer a amêndoa percorrer a imensa construção metálica de um lado a outro, através das janelas, sem atingir ninguém ou causar qualquer dano. E realmente lembro que fora um arremesso primoroso, mas errei o tiro certeiro que colidiu de frente com a testa de um passageiro, causando assim, um barulho quase ensurdecedor, acompanhado por um alto grito de dor.Até o Carboidrato se entregou a cômica cena que se transcorria. Ríamos como crianças hipnotizadas pela comédia divina. Eu estava ansioso para ver o próximo transporte, dessa vez me recusava a fazer segunda vítima, iria acertar sim, fora do alvo. Infelizmente, era tarde demais, a alegria coletiva teve curta duração, pois o ônibus parou e dele, no final da ponte, descia um homenzarrão, deveras forte, parecia enfurecido, exibindo a enorme marca vermelha na testa.

Com certeza tratava-se de alguém muito corajoso. Após suportar a dor do impacto da amêndoa, o infeliz via-se disposto a enfrentar nosso poderoso quarteto, sim nós éramos quase fantásticos. Tinha de reconhecer, o homem era enorme, no entanto não era dois e tão pouco quatro, não suportaria o peso de desempenhar uma luta e menos ainda se sagrar vencedor com tantos fatores pesando em desvantagem.

O cidadão parecia ignorar a lógica e continuava se aproximando. Uma figura estranha, cabelo queimado, estilo Black Power, camisa preta justa, exibindo um peitoral bem definido. Nos braços os músculos pareciam que iam saltar de tão desenvolvidos.... mas isso pouco importava. Percebi logo, não tinha outro jeito, o confronto se desenhava, no começo teríamos de dar tudo de nós, pois parecia ser um sujeito perigoso, um temível inimigo, quem sabe até hábil. No fim, ao menos pediria a meus amigos para pegar leve nos socos e ponta pés, afinal o coitado não merecia apanhar tanto, somente ensinaríamos a ele que nunca se deve adentrar numa briga em condições tão desiguais, sinto muito, ele realmente merecia essa lição.

Quando então me virei para trás a fim de dar as primeiras instruções, descobri que estava no inferno e não sabia, presenciei meus três amigos correndo desenfreadamente, completamente amedrontados. Sim, o arrebatador quarteto estava desfeito, reduzido a uma piada qualquer. Quanto a mim, desesperado fiquei, com sérios problemas, um pecado venial adquirira o status mortal, minha integridade estava em risco. Não havia alternativa, sozinho, jamais iria conter a fúria do brutamonte.

Certo que a situação se inverteu, agora nada conspirava a meu favor, só tinha uma coisa a fazer, adotei um estratagema semelhante, corri desesperadamente, tentando, como eles, abortar o problema em forma de 1.90m de altura. Em poucos instantes, consegui alcançá-los, não demorou e Tuca e Luide partiram para o lado direito. Junto a mim, Carboidrato um pouco a frente seguiu para a esquerda em outra extensão.

Sem olhar para trás, Tuca e Luide que me perdoem, desejei que o homem houvesse prosseguido para a direção contrária, onde os dois percorriam. Infelizmente, era muito azarado ou ele parecia ter visto bem quem desferiu a amêndoa e, portanto, ao espiar rapidamente, estávamos condenados, avistei o estranho a nos perseguir e um mero detalhe, agora aparentava inda mais irritação. Fomos obrigados a forçar as pernas, no ritmo que nos movíamos o homem em poucos instantes certamente nos alcançaria. O desespero tomava conta, corremos com toda presteza que nossos físicos avantajados permitiam, até que para nossa sorte, existia uma única cartada, Carboidrato notou a presença de um táxi, parado metros mais à frente.

Cada centímetro que nos separava do carro, parecia junto ao tempo concomitantemente aumentar, os instantes agora eram mais demorados e consequentemente esvaneciam nossa energia. Depois de uma eternidade, finalmente ao cruzar o veículo, o desafio foi juntar as últimas forças para abrir a porta e subir, apreensivos e apressadamente, lúcidos o bastante para lembrar de baixar os trincos das portas.

Há um ditado que diz que quando parece que tudo caminha para um desenrolar feliz, é daí que os problemas se desencadeiam de verdade. Isso porque o motorista parecia mais assustado que a gente. Não sabia se era pelo odor insuportável que invadia e se propagava ligeiramente por aquele ambiente minúsculo ou simplesmente por ver dois caras encharcados por glândulas sudoríparas, invadindo o seu possante. Aparentava tanta distração que possivelmente não notou nossa aproximação.

- Vamos depressa meu tio! – balbuciei, temendo que o estranho predador nos alcançasse.

O pavor do motorista tomava maiores dimensões. Tanto que se manteve intacto como se um assalto tivesse sido anunciado e o veículo, lógico, intacto, seguia como um enfeite, objeto inanimado sem qualquer perspectiva de movimento. Meu pedido se transformou num grito, com o medo crescendo toda vez que olhava para trás e notava que o “Epaminondas” estava a cada segundo mais perto.

Por um instante concluí que o motorista não levava a sério o nosso pedido. Finalmente o chofer notando nosso pânico, ressaltou a dúvida que permeava:

- Como querem que eu saia sem saber o destino que pretendem tomar? – proferiu o motorista denunciando se tratar de um sujeito culto, só não sabia onde nos levaria essa cultura.

Não me encontrava em condições de responder a pergunta. Sem esperança, mantinha meu corpo virado para trás, assistindo ao estranho ficar agora a poucos metros do carro onde estávamos – era o fim anunciado, nem o carro e o taxista seriam poupados, quem sabe todo o universo seria devastado pela ira Black Power!

Por sorte o Carboidrato, conhecido por nunca desistir, não ficou só observando a ação do estranho, juntou argumentos suficientemente válidos para responder a pergunta do motorista:

- Nós vamos para onde o senhor quiser, até pro inferno entende, desde que seja LOGO! Põe esse carro para andar antes que o monstro lá fora alcance a gente PORRRA –realmente, ele clamou o palavrão!

O condutor do táxi entendeu o recado, tinha raciocínio rápido e pisou fundo no acelerador, cantando pneu, lembrava um carro de fórmula 1, e principalmente sem o advento de qualquer fator externo. Traumatizado, na condição de caça, não podia parar de olhar para trás, na intenção de ter certeza quanto a ter nos livrado da iminente presença do mal.

Aliviados, posteriormente explicamos direito ao motorista qual o destino e o melhor trajeto a ser tomado. Fiz questão de, além de pagar a corrida sozinho, deixar o troco de gorjeta, estava convicto de gastar bem mais no hospital, dias internado na UTI e com um médico cirurgião para reconstituir o que sobrasse do meu corpo, caso o homem nos alcançasse. Agradeci também ao Carboidrato. Foi realmente um ato heróico avistar o táxi no momento exato em que, diferente do estranho que nos perseguia, havíamos alcançado o limite de nossas forças para continuar correndo. E por fim, duas constatações básicas, a primeira é uma lição, brincadeiras infantis podem tomar consequências assustadoras e se transformar em verdadeiros jogos perigosos, a palavra tem poder. A segunda é na verdade um segredo, até hoje temo trafegar a pé pelo local do incidente, parece sandice, mas é como se o sujeito ainda estivesse lá esperando, a minha espreita. O ódio era tamanho que ainda posso sentir, emanando das profundezas do rio e se alastrando pela ponte. Um desejo de vingança que nunca padece e ainda permanece vivo, de modo quase tão grande, como a crista que ostentava na profusão de cabelos que formava aquele imenso Black Power.... HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ!

Rafinha Heleno
Enviado por Rafinha Heleno em 17/04/2018
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Sobre o autor
Rafinha Heleno
Aracaju - Sergipe - Brasil
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