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Somos livres?




Estamos vivendo em um mundo tão diferente do de ontem que nem sei se podemos nos considerar seres livres. As câmeras escondidas, antes apenas nos bancos e shoppings centers, hoje invadiram as ruas e nos filmam em qualquer lugar que adentremos, até mesmo nas privadas e nos corredores dos hotéis/motéis mundo afora. Somos espionados 24 horas ao dia sem que contra isso possamos fazer nada!
O número do nosso CPF permite ao governo saber sobre nossas compras e vendas, por menores e mais insignificantes que sejam. Nosso passaporte é a única maneira que o governo nos empresta e que nos permite cruzar as fronteiras de nosso país, por ar, mar ou terra.
Nossa liberdade se foi e há tempo. O cidadão que habita este mundo moderno que conhecemos, está fadado à perseguição e ao controle absoluto de seus passos e de suas ações. Esse é também o preço de viver-se em uma sociedade moderna. E ainda podemos acreditar que somos livres? Jamais! Em nome da segurança coletiva, roubam a liberdade de cada um de nós e ficamos a ver navios e fugir dos fantasmas que nos observam entre sóis e luas que também são vigiados por satélites em órbitas as mais diversas.
Nem a poesia é mais livre, quanto mais os poetas, esses debulhadores de sonhos, colhedores de esperanças, artesãos da felicidade. Essa atitude dos governos atuais é um obsessivo prazer. Se nada podemos fazer e se o nosso espírito, apesar de pronto, é envolvido por uma carne pecaminosa e fraca, resta-nos entender a antiga frase latina que muito diz: “Spiritus promptus est, caro autem infirma”.
Repensar o conceito de liberdade talvez nos seja uma forma mais lógica de sermos  menos prisioneiros de nós mesmos. Se não posso ir sozinho a lugar nenhum, como posso crer na solidão e construir solitárias marchas onde apenas meu espírito e eu queremos estar juntos?
Os solilóquios de ontem são os burburinhos de hoje trajados pelas auscultas clandestinas, não apenas as do governo, as oficiais, como também as dos sacanas que desrespeitam qualquer suspiro da liberdade alheia. E podemos nos considerar cidadãos livres? Como?
Ouvem-se falas estranhas nos vértices das ruas, no miolo das avenidas, nos plátamos dos mirantes, dentro de ambientes fechadíssimos que a justiça, ao contrário do que dizem, não é cega, mas parcial. Ai de quem for condenado e seja ele preto,  pobre ou desconhecido. Tenho ouvido comentários assombrosos acerca de perigosos criminosos que compraram suas liberdades (?) e de inocentes que têm mofado atrás das grades dos presídios públicos e privados, simplesmente porque não têm prestígio social ou conhecimento com algum poderoso que possa oferecer-lhes “facilidades”, essas mesmas que jamais deveriam existir em um país que se preze e que possui instituições sérias, moralizadas, realmente comprometidas com a liberdade plena do cidadão.
E, por fim, não sei se posso afirmar que o velho adágio popular ainda exista: “Minha liberdade termina onde começa a do outro”. E a do outro começa onde? A minha termina onde? E como cobra de duas cabeças, a nossa liberdade é conversa para boi dormir ou para anjos baterem asas. Como aquela, ela pode até ter mais de uma boca mas não oferece perigo. Nossa liberdade é fogo quase morto no braseiro de nossas esperanças tão faltosas.
Se correr, a câmera acha e se ficar a polícia prende. A liberdade é ave rara, extinta, cuja última imagem só se pode ver nos álbuns de fotografias das raras aves extintas pelo despoder dos tempos e pelas anárquicas tomadas de decisões em que o homem e o ser humano têm e mesmo valor que um número de registro cartorial. Liberdade, ó liberdade, onde andas? Por quais caminhos transitas? Somos apenas homens comandados, sedentos de bem-estar e de verdadeiro, cheiro e sabor da vida!
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 01/09/2007
Código do texto: T633442
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulino Vergetti Neto
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 59 anos
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Paulino Vergetti Neto