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O Dia em que Descobri o Amor...

Eu estava um tanto desiludido com as coisas que vivo... Tantas coisas acontecendo na sociedade que se diz “civilizada”... Tantos amores vãos e cheios de regras que por natureza não podem ser considerados amores.

Tanta Maldade e tanta hipocrisia... Tanto sofrimento pessoal e alheio... Pessoas iguais se digladiando por ilusões de posições que a sociedade utiliza para-nos por uns contra os outros e nos tornarem mais fracos como grupo.

Estava triste... Precisava só de um abraço... Bateu meu momento “revolts”...

Saí do Fórum e fui direto para a Barra Funda com uma amiga que muito amo, eu gosto de chama-la de burguesinha pelo fato de morar em Perdizes, mas é uma trabalhadora proletária como todos nós...

Ela fica com raiva porque a chamo de burguesinha, MAS MUITA RAIVA MESMO! Porque ela é povão, não tem nenhum preconceito, gosta de se juntar com GENTE! E chegamos ao consenso que estar com gente é a essência da vida.

Entramos no Metrô, eu... Oh meu Deus... Eu? Muito pra baixo... Quase sempre estou assim...

Entramos no bar e pedimos o de sempre: Pitu e Cerveja. Todas as vezes que peço uma Pitu fico me perguntando... Qual a graça que esse povo vê em tomar Whisky? Se ela é tão saborosa, tão quente e tão... Tão... Tão simples...

Estávamos, como sempre, a comentar de problemas. Ela, sempre paciente ouvindo minhas lamentações: Por que as pessoas são assim ou assado, e por que a gente não consegue ser feliz? Mentiram para a gente e etecetera e tal...

E ela disse:
- Nego, pega o violão!
E eu respondi pra ela!
- Que porra de violão! Eu não presto para tocar isso! Você já sabe que sou ruim!
Ela suspirou com paciência de mãe... Gesticulou a cabeça em tom de negação e disse com seu bom português de professora:
- O caralho que você é ruim! Pega essa porra e toca!
Com uma determinação carinhosa neste tom, não havia alternativa a não ser pegar o diabo do violão e tocar.
Peguei. A primeira música que toquei foi La Belle de Jour de Alceu Valença.

Confesso, quando eu coloquei o violão no meu colo, sentia-me decepcionado pela minha natureza torpe, por ter-me tornado um “burocrata bundão”, por não estar perto do mim mesmo e simplesmente estar observando a vida como quem assiste uma novela.

Aquele violão no meu colo me assustou, me embarcou em tempos remotos, nos tempos em que eu era livre e amava fazer aquilo, e sabia, que, naquele tempo, fazia bem! Ou pelo o menos pensava que fazia bem!

Eu pus o violão no colo e fiquei olhando... Olhei... Olhei... Passei meus dedos nas cordas... Bati com a mão direita... Fiz um acorde de “dó” com a mão esquerda... Nada me vinha à mente! Nada, absolutamente NADA!

Com o acorde de “dó” posicionado no braço do violão comecei a bater nas cordas... E aí me veio à mente a música de Alceu, esta que já disse qual é, La Belle de Jour.

Esta música para mim é importante, a sonoridade é boa, é simples de tocar, a canção fica num tom um pouco alto pra mim... Mas quem me conhece sabe, amo a língua francesa!

E amo porque tive um amor que foi para a França e na época nem me amava, e quando começou a me amar eu tive de ir embora... Dores da vida, mas a encontro não só nesta música do Alceu, como em Edith Piaf, Charles Aznavour e principalmente, Sérgio Gainsbourg e Brigitte Bardot...

Comecei a cantar... Ahhhh Heiii! Poucos segundos depois as pessoas pararam... Eu fiquei com medo, mas nem liguei muito... Porque aquele estado emocional de tristeza havia se corrompido em pleno êxtase!

Imaginei que o dono do bar, que também era dono do violão, e músico, ia tomar o violão da minha mão. Mas eu estava feliz! Sabe o que é estar feliz de verdade? Eu estava feliz! Então pouco me importava se iam me tomar o violão, aquela seria a música da minha felicidade!

Não me tomaram o violão, pelo contrário, encostaram para ouvir...

Em um dado momento, depois de algumas doses e alguns copos de cerveja, Carolina foi ao banheiro. Nisto, encostou uma “Dama da Noite”, que estava cortejando os homens à minha volta, e por fim, nos cortejares equívocos que resultou em sua desistência deles, ela veio até mim, sorrindo amavelmente...

Meus preconceitos me impediram momentaneamente de sorrir de volta, depois eu pensei, é só um sorriso! E aí eu sorri de volta.

E ela começou a conversar, e meus preconceitos atrapalharam a versatilidade de minhas argumentações... Depois eu pensei... Não vou deitar-me com ela, então, o que me impede de conversar? Gosto de conversar! Vamos conversar, ora!

E conversamos por algum tempo, Carolina chegou. Carolina que é bastante afeiçoada ao povo iniciou-se na conversa, e conversamos por um bom tempo... Entre palavras de conversação e palavras melodiadas no violão a noite passou a transcorrer-se.

Havia naquela rua, alguns homens que sempre estavam ali, um baiano e um recifense, que não direi nomes porque não sei se eles permitem. Que nos chamaram para beber e tocar violão do outro lado da rua, porque “ao vento” seria mais gostoso.

Fomos, despidos de nossos preconceitos burgueses que nos ensinaram.

Ali encontrei o amor... Ali encontrei o amor... Ali encontrei o amor! O baiano fez um caldo, não sei onde, um caldo de feijão com alguns pedaços não nobres de galinha, alguns pedaços de batata. A panela com as bordas entortadas, preta no fundo.

A colher que passava de boca em boca, de pessoas que não conheço e não sabia da higiene.

O baiano então prostrou-se na minha frente com a panela de caldo me oferecendo, seus olhos puros de ternura e como se pedisse aceitação, em uma mão tinha a colher, na outra, a panela de caldo, e disse:

- Prove baiano! O caldo está delicioso! – Com aquele sotaque musicalizado da Bahia que é chique! Mas, ele, se diz ser chique três vezes! Uma vez chique por ser baiano e mais duas por ser de Xique Xique, ou seja, chique duas vezes!

Eu provei o caldo... QUE CALDO MARAVILHOSO! Nunca tomei igual! E espero um dia poder provar novamente!

O sabor era algo perfeito, feijão com galinha era algo que eu nunca tinha pensado! Mas ele fez! Com pedaços de batata... Maravilhoso! Um tempero perfeito que eu acredito que só a Bahia tem...

Uma colherada, duas, três, aquilo não acabava! Mas eu tinha de me conter, pois era caldo para oito pessoas. Então, algumas colheradas daquele caldo, deveriam ser suficientes para preencher a barriga dos oito.

Em algum momento da noite, em alguma conversa que não lembro qual foi, sei que estávamos falando de amor, estava com um livro do Vinícius de Moraes, que aqui e acolá, declamava alguma coisa, um dos moradores de rua, com as unhas sujas, o rosto oleoso e as roupas que usou por tantos dias me abriu os braços...

Sim... Abriu os braços... Com os olhos brilhando de ternura, com uma vontade expressiva que não se vê! Poxa! Porque não vemos isso uns nos outros? E em todos os lugares? Ele abriu-me os braços e não disse nada... Apenas sorriu com a boca, com os olhos, com a alma...

E eu intuitivamente abri os braços... Sorri... Mas sorri com um sorriso de felicidade tão grande, que foi como, se, naquele momento, eu tivesse encontrado tudo... tudo... Tudo o que eu estava buscando na minha vida inútil!
Eu o abracei! E foi o melhor abraço que eu tive na vida! Carinhoso, pleno e sincero... Como um abraço tem de ser! E passamos vários minutos abraçados, ele estava com olhos fechados, eu fechava os olhos e sentia, e por vezes olhava para o céu sem estrelas de são Paulo e os colchões apostos debaixo da ponte da estação Marechal Deodoro...

Graciliano Tolentino
29-05-2018
Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 29/05/2018
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Sobre o autor
Graciliano Tolentino
Bertioga - São Paulo - Brasil
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Graciliano Tolentino

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