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DIPLOMA HOJE É UMA ILUSÃO COMPRADA

Não vai longe o tempo em que possuir um curso superior se traduzia numa grande vantagem social. Tão suficiente que se dispensava algo mais. Em suma, era o máximo. Ganhava-se, assim - mais merecidamente que formalmente - o título de doutor. Comemorava-se efusivamente cada vitória, desde a superação do vestibular. A festa de colação de grau, então, costumava reunir toda a família, a ama de leite, os amigos e até o animalzinho de estimação. O diploma da reconhecida universidade federal, com as armas da república e bordas em desenho rococó, merecia rica moldura para ser pendurado na mais visível parede. Fosse do escritório, do consultório ou até mesmo da sala de visitas da moradia. Bastava mirá-lo para recordar a grandeza dos anos passados na companhia de colegas que viraram amigos, quiçá, irmãos. Sentir orgulho de ter sido aluno do professor tal, de cultura e competência invejáveis. Recobrar os sons, cheiros e cores de cada aula. Não se arrepender das horas noturnas consumidas nas vésperas de provas.
Nas ruas - mesmo em cidades de maior porte – não precisava jactar méritos tampouco praticar “carteirada”. Todos sabiam com quem estavam falando. Não havia quem lhe sonegasse respeito e reverência. Comerciantes saltavam seus balcões para cumprimentar o doutor. Gerentes bancários abriam-lhe facilmente os cofres. Moçoilas de montão cobiçavam ardentemente fisgar aquele bom partido. As doutorazinhas, ainda que em menor número, também colecionavam legiões de pretendentes. Gente exemplar. Tê-la como vizinha era referência de alta relevância.
Hoje – ah! que pena - os diplomas se confundem e se misturam com certificados, muitos deles obtidos por via postal. Quando raramente bem prezados, ficam arquivados numa pasta de plástico com elásticos nos cantos. Ninguém ostenta mais aquele respeitável charme de doutor, nem mesmo os que passaram por curso formal de doutorado.
Essa bagunça começou com a popularização dos cursos de ensino superior, na época da ditadura militar, principalmente os das áreas de ciências humanas: direito, administração, economia, contabilidade, pedagogia e outros.
Os famigerados cursinhos de pré-vestibular, filão de enriquecimento dos mercenários do ensino, logo passaram a ocupar esse novo espaço mercantil. Seguramente mais lucrativo, por ter duração mais alongada e acenar, ao final, com um diploma igual ao do famoso doutor fulano de tal.
A cada dia inaugurava-se uma nova faculdade particular. Noturna de preferência e próxima de barzinhos. Não tardou se encher este país de desocupados bacharéis em direito, administração, pedagogia e outros tantos diplomados em curso superior. A quantidade desses “profissionais” não praticantes chega a empatar com a de “católicos” não praticantes.
Esqueceram – é claro – que o mundo e as sociedades evoluíram. A demanda por profissionais não mais se restringe a advogados, administradores e contadores. Nem mesmo aos tradicionais engenheiros civis. Hoje, necessitam-se em larga escala é de operadores de logística, gerentes de produção, controladores de gestão, fiscais de tributos, gestores de recursos humanos, ouvidores, educadores diversos e outros tantos tipos de profissionais que dificilmente são formados nessas fajutas escolinhas papa-níquel, vendedoras de diploma.
Até os cursos de mestrado e doutorado, antes respeitados e confiáveis, acham-se lamentavelmente prostituídos. É muito fácil conseguir-se hoje um diploma de Mestre ou Doutor comparecendo raramente - duas ou três vezes no ano - à instituição universitária. As chamadas teses ou dissertações, em sua maioria compradas de elaboradores profissionais, são um fracasso ou uma vergonha. Nada de original ou que represente valiosa contribuição à ciência ou à sociedade. Mas, por incrível que pareça, obtido o título, seu portador poderá fazer-se docente barato de qualquer dessas fajutas faculdades particulares e, assim, “enriquecê-la qualitativamente”, segundo os critérios do Ministério da Educação. É a falsidade sustentando uma mentira acadêmica. E isso só ocorre porque o órgão gestor máximo da educação no país não fiscaliza nem se liga para a origem acadêmica do diploma.
Ao contrário, o setor privado da economia, a exemplo do que ocorre nos países desenvolvidos, tem evoluído para driblar essa duvidosa qualidade dos diplomas. Alguns falsos! Objetivamente, preferem de seus funcionários - ao invés de diplomas - habilidades racionais e operacionais, bem como experiência executiva.
Lamentavelmente a expansão mercadológica do ensino superior fez os diplomas acadêmicos virarem lixo. Mirando esse monturo, sofrem de decepção e arrepio os que investiram seriamente tempo, esforço e sacrifício para alcançar um honesto e valioso diploma de bacharel, licenciado, mestre ou doutor.
Roberio Sulz
Enviado por Roberio Sulz em 13/06/2018
Código do texto: T6363475
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Roberio Sulz
Alcobaça - Bahia - Brasil, 75 anos
56 textos (430 leituras)
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Roberio Sulz