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Manipuladores

Eu ainda gozava de um certo prestigio como bonequeiro, quando relaxei. Numa cena, na segunda, um boneco me desafiou. Era um papagaio, confeccionado em madeira e espuma, correndo sozinho pelo palco, com seus fios de arrasto pelo chão.
- Você não me pega!?!?!?
Conhecia aquela voz. Eu tinha criado, tecnicamente era minha, mas minha boca não se movia, nem poderia ser ventríloquo, eu sou marionetista. Deveria ter parado de tomar vinho no café da manhã. Poderia ser o iluminador me pregando uma peça, já que estava frustrado com sua carreira de ator. Olhei para os lados estava escuro, o publico já se impacientava, e nada do contra-regra.
- Você não me pega!?!?!?
Enquanto eu permanecia estático, diante do boneco, e os murmurientos dezenove expectadores, começavam a ir embora. Eu gritava na luz.
- Não me deixem só!!!
O papagaio, já havia cortado os fios do meu controle, liguei as luzes, estava sozinho no teatro, todos foram embora. Precisei enfrentar o papagaio que estava diante de mim, ele numa cadeira da primeira fila, eu sentado no palco balançando os pés. Curiosamente, eu que sempre os via como seres vivos nos pequenos reparos exigidos, agora estava frente a ele vivo, sem saber com agir. Sempre busquei a primazia da arte de manipular, quanto mais realista o boneco parecer, mais real fica, mas agora estava vivo demais. Desmaiei três vezes.
Lembrei de quando comecei, era jovem, quase ninguém praticava esta arte no país, viajei o mundo aprimorando técnicas, com os mais afamados manipuladores do planeta, e nunca tinha visto caso assim. Precisava urgentemente parar de beber. Aquele vinho corante, dava para pintar uma parede, devia ter feito mal. Esfreguei os olhos varias vezes, não adiantou. Estava surtando. Não estava mais conseguindo trabalhar, uns falastrões de despreparados, sem técnica, pouco ligando para a magia envolta aos títeres, roubavam meu publico, nem tão fiel, mas ávidos por bonecos mal manipulados rebolando em cena. Deprimente e excitante para reprimidos. Ele chegou até mim.
- Somos como pais e filhos, um dia cai o umbigo.
- Não é a mesma coisa.
- É sim. Você é meu pai e minha mãe. Sei que é doloroso, é como se um parto duplo.
Já era demais, lição de moral de um boneco era demais. Aos poucos estava me resignando com esta rebelião, não perdi o publico com apenas este espetáculo. Depois de ver esta invasão bárbara de bobagens, relaxei, comecei a perder qualidade, apresentava bêbado, já não tinha a mesma coordenação, estava um lixo, para ser bem sincero.
- Não sou teu pai. Não posso ser teu pai. Não tem como. Você é de espuma e madeira. Eu de carne e osso.
- Olha o preconceito. Não sabe respeitar as diferenças. Pai é quem cria.
- E tem mais! Tem mais! Eu sou racional.
Nessa hora eu já estava aos berros, para ver se aparecia alguém naquele teatro, o iluminador, o sonoplasta, a moça do cafezinho.
- Tens certeza disso?
- Não pode ser verdade...
Tentei avançar nele, mais desisti a tempo. Já era loucura demais, alem de conversar com um boneco, ainda brigar com ele. Deveria ter proibido ele de ler. Mas eu não sabia. Procurei o numero do meu analista, celular estava sem bateria.
- Droga! Sempre que se precisa desta coisa não dá.
- O que vais fazer?
- Vou destruir você.
- Não faça isso pai.
Apelar não vale. Sou sentimental demais para estes negócios de filhos, nunca tive um. Devia ser a solidão dos anos, que passaram rápido demais. Achei que poderia viver só, e falhei.
- Seu merda! Eu vou te destruir. Eu te criei. Eu te destruo.
- Engana-se! Eu te criei.
- Levei semanas para recortar, pregar, colar, pintar, e formata-lo assim. Para agora para tu me afrontar.
- Eu nem tive um jardim do Éden para mim, tampouco uma fêmea, e agora queres me mandar para o inferno. Cadê meu livre arbítrio?
Agora eu sabia o que tinha acontecido com minha bíblia, Nietzsche, Richard Dawkins, Jabor, e tantos outros livros desaparecidos. Sem argumentos, e com vontade de sair tomar uns vinhos, entreguei os pontos.
- O que vai fazer?
- Vou libertar todos os bonecos e marionetes manipulados por este país a fora.
- Como assim? Vais acabar com o teatro de formas animadas.
Anos mais tarde, o país inteiro só falava do papagaio que passou treze anos lendo livros num ambiente inóspito, quase deserto, e que iria mudar o mundo. Seu discurso no plenário da câmara avivou as mais remotas esperanças, mesmo as primeiras a morrer. Uma onda de otimismo tomou conta de todos.
Quando acordei, com uma dor de cabeça dos infernos, sem saber se era do vinho, ou do sonho maluco que acabara de ter. Mas a tv estava ligada, já dava as primeiras noticias do dia. Mais escândalos na capital federal, o papagaio agora presidente, só repetia.
- Curupaco! Eu não sei de nada. Eu não vi nada.
J B Ziegler
Enviado por J B Ziegler em 04/09/2007
Código do texto: T638842
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
J B Ziegler
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 37 anos
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J B Ziegler