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POR QUE TEMOS DE DIZER ADEUS?

POR QUE TEMOS DE DIZER ADEUS?

É impressionante como a gente pode se dar conta, da forma mais inesperada, de que coisas banais da vida têm um significado muito maior do que parecem ter. Não sei se muita gente assiste a um desses enlatados americanos chamado Everwood, mas foi justamente enquanto desperdiçava alguns momentos de sono, por volta das duas horas da madrugada, que ouvi de uma menininha de uns dez anos, personagem do tal programa, a seguinte frase: - Não quero mais ter que me despedir de ninguém. Pois foi essa frase que disparou uma torrente de considerações no meu cérebro.
Eu, como a maioria das pessoas, também sempre considerei a despedida como um momento do cotidiano, uma situação em que duas ou mais pessoas dizem até logo, adeus ou coisa que o valha e se afastam, para, mais tarde, voltarem a se encontrar. Ou não. Contudo, quando ouvi aquela frase da tal jovem, algo diferente foi despertado dentro de mim, até pelo contexto de tristeza em que o diálogo se desenrolava. A pequena jovem fora repentinamente afastada do convívio com um amigo, por causa de problemas que agora não cabe discutir, e o pai dela tentava consolá-la, dizendo que ela arrumaria novos amigos em breve. Então, lacrimejante, a garota desferiu a frase que disparou meus sentidos.
Nesse momento, parece-me muito claro que conhecer pessoas é algo prazeroso, já que isso nos abre muito mais possibilidades de relacionamentos. Encontra-se alguém em uma festa, numa reunião de amigos, num bar e, se a hora for oportuna, nosso rol de conhecidos sofre um acréscimo. Talvez, possa estar nascendo uma nova amizade ou algo mais, no caso dos desimpedidos. Excetuando os que têm aversão ao convívio social, qualquer um sente prazer em apertar a mão de um, até então, desconhecido. Aliás, convém lembrar que os seres humanos, de um modo geral, são animais sociais por natureza, até por uma questão de sobrevivência. Caso contrário, teríamos sido dizimados pelos mastodontes e outros animais pré-históricos, lá no início da nossa história sobre a terra.
No entanto, percebo agora que dizer um simples até mais, mesmo por instantes, provoca em nós uma sensação de vazio, de perda. E a dor que vamos sentir será proporcional ao tempo da separação. Nesse momento, lembro as várias vezes em que, pelos mais diversos motivos, tive de me despedir de pessoas queridas – fim de festa, fim de férias, fim de vida – e chego à conclusão de que a dor, de fato, só mudou de intensidade em cada uma delas. É bem provável que seja exatamente nossa aversão a esse tipo de sentimento que nos faça ser tão avessos à morte. Afinal, nesse caso a despedida é para sempre. E a dor, apesar de ser amenizada pelo tempo, também. Seria ótimo se não tivéssemos de dizer adeus a ninguém. A frase daquela garotinha, naquele enlatado americano de fim de noite, faz muito sentido.
Everton Falcão
Enviado por Everton Falcão em 05/09/2007
Código do texto: T640184
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Sobre o autor
Everton Falcão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 57 anos
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