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Feriado de Sete de Setembro

FERIADO DE SETE DE SETEMBRO

Insensato é aquele que espera tratamento gentil de um desconhecido. Não sei o que se passa na cabeça das pessoas, que estão sempre em guarda e na defensiva. Não há mais cortesia e cumprimentos amáveis. Todos se esbarram tentando abrir caminho à força. Furar fila e ser o mais esperto, parece que é o lema geral. A paciência se esgotou. Será que foi na parada do “basta” ou do “já cansei”?  Quem está cansada sou eu que, por ser mulher, sempre sou chamada de “tia ruim de roda”, no trânsito difícil do Rio de Janeiro. Tirei minha carteira de motorista quando a maioria deles nem era nascida. Naquele tempo se fazia exames no DETRAN e, se não obtivesse os pontos necessários ou o inspetor achasse que você não tinha obedecido a uma ordem dada, era reprovado e tinha que cursar mais três meses de auto escola para um novo exame. O exame de vista não era tão detalhado como hoje onde, dizem, testam a sua visibilidade com farol alto na sua cara (coisa proibida mas, comum nas estradas, mesmo com o risco de causar acidente do outro lado da pista). Nos ônibus e trens, os homens sempre se levantavam para uma mulher se sentar, mesmo que fosse jovem. Hoje, infelizmente, eles são os primeiros, pela força, a se sentarem, quando vaga um assento. Nas lojas, o (ou a) atendente se dirigia a quem primeiro chegasse ou entrasse. Os outros ficavam, pacientemente, esperando a sua vez. Mesmo que a primeira consulta demorasse, até que o cliente comprasse ou fosse procurar o artigo em outro lugar. Por toda parte havia um respeito ao outro e seus direitos que, hoje em dia, é sempre o meu e o resto que se dane. Por causa desta intolerância generalizada tenho permanecido em casa mais tempo e procuro dirigir somente nas horas em que o trânsito é mais leve. Mas, imprevistos acontecem, como hoje, sete de setembro. Saí de casa às onze horas da manhã, pensando que a maioria já estava no seu destino desde ontem e, os retardatários, já tinham pegado a estrada bem cedinho. Qual o que. No Leme, onde moro em uma rua paralela à Avenida Atlântica, levei quinze minutos da porta da minha garagem até a Avenida Princesa Isabel. Lá também havia carro, ônibus e caminhão de entrega (entrega em feriado?) por toda parte. O aterro estava fechado e tive que me contentar com o túnel Santa Bárbara. Anda, pára, anda, pára. A embreagem deve ser boa porque não quebrou e o carro também não esquentou. Quem esquentou foi minha paciência. Buzinas, poluição sonora, davam o tom do feriado.
Sempre pensei que os feriados foram inventados para que as pessoas que trabalham possam se divertir e descansar da lida. Se este é o tipo de descanso que podemos ter, nestes dias, no próximo ficarei em casa vendo os engarrafamentos pela televisão. Finalmente consegui chegar à Linha Vermelha que estava fluindo. Já na BR-40, perto da saída para Teresópolis havia um enorme engarrafamento e pensei: felizmente vou para Petrópolis e parece que deste lado está tudo bem. Ledo engano. Logo depois do pedágio, que já aumentou o seu valor, a concessionária da via só permitia uma pista de rolamento. Resultado: Caminhões, ônibus e carros, sem falar nas motos que não ficam retidas, competiam para ver quem ia primeiro. Não vou brigar com um muito maior do que eu e, pacientemente, esperei que me permitissem começar a subir a serra. Pensei comigo mesma: agora, em vinte, vinte e cinco minutos, estou na Cidade Imperial. Novamente ledo engano. Um caminhão, bem grande e bem pesado, havia quebrado logo depois do único túnel da estrada e tudo ficou parado ou lento, até em baixo. O tempo que calculara dobrou e passou. Só não tive fome nem sede porque saíra cedo e cheguei antes da hora do almoço e, trago sempre comigo no carro, no espaço que há na porta do lado do motorista, uma garrafa de água. Finalmente meu feriado começou na sexta feira à uma hora da tarde. Agora eu vou esquecer a vinda para não me aborrecer antes da hora de voltar! Acho que vou encurtar o período de descanso e regressar ao Leme no domingo de manhã. Isto, se a previsão meteorológica não mudar, começar a chover e todos terem a mesma idéia que eu. Eta tempinho difícil que estamos vivendo. Se ligo a televisão, só vejo desastres e corrupção. Se ligo o rádio, ouço as estatísticas de outros feriados que, no primeiro dia, já foram ultrapassadas. O jornal só dá ciência de corrupção, delegados assaltando, juízes vendendo sentenças e a inflação, o dólar e o euro subindo. O barril do petróleo nas alturas e meu carro é à gasolina. Os aeroportos, as rodoviárias e as estações de lanchas estão entupidas de gente, querendo ir daqui para ali.
Chega! Basta! Cansei! Quero sumir, entrar no túnel do tempo e voltar à época da minha infância com patins e bambolês; oiôs e bilboquês, que ninguém sabe mais o que é isto. E pular corda de foguinho? Alguém ainda se lembra? Balanço e escorrega nos parques! A gangorra ainda é conhecida por causa do sobe e desce dos políticos. Hoje é um que está lá em cima e o outro aqui em baixo. Amanhã é o contrário. Com a diferença que na gangorra, quem está em baixo é que controla o que está em cima e fica impotente para descer.
Vou desligar a internet, a televisão, o rádio e ler um bom livro de papel e não virtual. Virar as páginas com o dedo molhado e cochilar com ele aberto sobre a barriga. Domingo de manhã eu acordo para a minha realidade. Tchau.
Gilda Porto
Enviado por Gilda Porto em 08/09/2007
Código do texto: T643740
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Gilda Porto
Petrópolis - Rio de Janeiro - Brasil
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