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EU E OLAVO BILAC

 
Eu reencontrei Olavo Bilac em 2014 numa Black Friday se não me engano. Eu já com meus quase cinquenta e um anos percorria a seção poética da Livraria Saraiva. A poesia estava muito latente em mim em 2014. Nem sei explicar direito, mas o fato é que foi nesse ano poético que reencontrei Olavo, o poeta parnasiano que tirou-me as vendas dos olhos e colocou-me um olhar poético que podia brincar com as palavras nas entrelinhas do mundo.
Foi ele, ah, foi ele, e naquele dia de Black Friday ele estava lá com seus óculos e bigodes especiais me esperando. Meu Deus quanta saudade! Nos abraçamos longamente. Eu e o “príncipe dos poetas brasileiros”.
Quando conheci Olavo Bilac eu tinha apenas sete ou oito anos, não sei com exatidão. Sei apenas que o encontrei nas páginas do nosso livrinho escolar de poesias “ As mais belas Poesias” . Ele estava lá com seus óculos em cima do nariz e aqueles bigodes torcidos reverenciando as “Velhas árvores”  com seu jeito de poeta parnasiano. Ou seja, Olavo era daqueles que valorizava a poesia e rimas perfeitas, vocabulários cultos, essas coisas.  Digamos, a perfeição formal.  Contudo, apesar de trazer a marca do movimento literário do parnasianismo, sua poesia transcendia esse lado frio  que não se importava muito com sentimentalismos.  Conforme falavam ou falam ainda os críticos, ele flertava com a estética romântica, a sensualidade ao brincar com a sonoridade das palavras.  Eu falei isso para ele enquanto segurava um livro de releituras de suas poesias nas mãos,  bem na página onde refletia a belezura de seu soneto “ Olha-me”. Ele sorriu e declamou-o para mim olhando-me nos olhos:
 
olha-me! o teu olhar sereno e brando
entra-me o peito, como um largo rio
de ondas de ouro e de luz límpido, entrando
o ermo de um bosque tenebroso e frio
 
fala-me! em grupos doudejantes, quando
falas, por noites calidas de estio
as estrelas acendem-se, radiando
altas semeadas pelo céu sombrio
 
olha-me! assim! fala-me assim! de pranto
agora, agora de ternura eheia
abre em chispas de fogo essa pupila
 
e enquanto eu ardo em sua luz enquanto
em seu fulgor me abraso, uma sereia
soluce e cante nessa voz tranquila!
 
Eu chorei? Sim,  chorei. Lágrimas  vadias turvaram-me os olhos  enquanto ele, meu querido Olavo, ia declamando para mim :
 
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

 
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.
 
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

 
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

 
Ah! Olavo, com certeza fizeste esses versos para mim, pois quem mais senão eu já inventei de ouvir estrelas?
E como se me compreendesse ainda mais, Olavo seguiu folheando aquela Antologia tão bela, parando nas páginas dedicadas ao seu livro “Tarde” e escolheu  o soneto “Dualismo” para me declamar, pois sabia que justamente esse soneto tinha me inspirado pelo fato, certamente, de mostrar o quanto esse dualismo está presente em todos nós. 
 
"Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, entre maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
 
Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando mum vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
 
Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
 
E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora."
 
 Não satisfeito foi me declamando outros tantos e, cada vez mais meu amor por Olavo Bilac ia ficando mais forte. Digam-me, como não se apaixonar por alguém que sabe reverenciar a pátria, os amigos, os amores em lindos versos? E claro, como não se apaixonar por alguém que nos abriu a mente poética e que, sem mesmo perceber, se apaixonou por sonetos? Influência parnasiana... Ah, sim e desse maravilhoso príncipe dos poetas brasileiros.
Quando ele fechou o livro ainda caminhamos de mãos dadas entre os livros da Saraiva. Eu não era mais aquela menininha que ilustrava suas  “ Velhas árvores” em um pequeno caderno de 20 folhas, manuseando meus lápis de cor e sonhos... Sonhos tão indecisos ainda. Foi ele, sim foi ele que me mostrou o caminho poético, mas só entendi isso muito tempo depois. Agora ele estava ali diante de mim e ia também me falando de sua vida como jornalista, contista, cronista e poeta brasileiro do período literário parnasiano.   À nossa volta um mundo de livros se perdiam em seções de mais vendidos, lançamentos, Outlets...  Olavo fazia parte daquele mundo e eu não queria sair nunca mais dali...
Mas sobre as “ Velhas árvores” de Olavo Bilac, como era lindo cada verso daquele poema que descobri muito anos depois ser um soneto:
 
Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...
 
O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.
 
Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:
 
Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!
 
Eu lia esse soneto imaginando a velha árvore da encosta lá na roça de meu pai. Ate hoje, quando estou debaixo dessa árvore, me lembro de Olavo e como ele adorava me ver inebriada com aquela poesia tão clássica e tão linda. Aquela menininha de cabelos castanhos curtos e de franjas, os pezinhos metidos nos chinelinhos havaiana balançando nos bancos da escola... E o olhar? O olhar perdido nos quartetos e tercetos das “ Velhas árvores”. Sim, Olavo sabia que aquela menina tinha alma poética. Só ela ainda não sabia. Ele sabia, inclusive que eu ia escrever muitos sonetos.  Sonetos ao vento, sonetos ao amor... E de fato escrevi...
Ah! O classicismo do soneto é tão lindo e perfeito. Sua beleza formal transcende o parnasianismo. Muito tempo depois ousei reverenciar minha velha árvore com um soneto.  Foi inclusive meu primeiro. Culpa de Olavo, claro, porque foi ele que me ensinou a amar as árvores e os sonetos. Mas sofri e ainda sofro para escrever em razão de suas técnicas dificílimas. Não é sem razão que sua metrificação trás o decassílabo heroico. Ah! Escrever soneto é um ato heróico de fato.
Mas o fato é que nunca esqueci Olavo apesar de ficarmos algum tempo sem nos vermos. Agora entre nós já não existia apenas as “Velhas árvores”, mas muito mais....   Havia  a “ Ressurreição”. Havia “ Respostas na sombra”. Havia “ Inocência” e “ Milagre” . Havia “ Um beijo” ,o “ Sonho”, “ O oitavo pecado” e muito mais. Nem dá para enumerar tudo.
Mas o melhor de tudo é que depois de nos perdemos pela Saraiva, ele foi comigo para casa e ficou lá vários dias declamando-me seus belos poemas. Quando ele partiu fiquei parada na última página da sua Antologia. A alma humanizada e sua doce  “ Sinfonia”ecoando em meus ouvidos:
 
Meu coração, na incerta adolescência, outrora,
Delirava e sorria aos raios matutinos,
Num prelúdio incolor, como o alegro da aurora,
Em sistros e clarins, em pífanos e sinos.
 
Meu coração, depois, pela estrada sonora
Colhia a cada passo os amores e os hinos,
E ia de beijo a beijo, em lasciva demora,
Num voluptuoso adágio em harpas e violinos.
 
Hoje, meu coração, num scherzo de ânsias, arde
Em flautas e oboés, na inquietação da tarde,
E entre esperanças foge e entre saudades erra...
 
E, heróico, estalará num final, nos clamores
Dos arcos, dos metais, das cordas, dos tambores,
Para glorificar tudo que amou na terra!
 


 
Referências
 https://www.significados.com.br/parnasianismo/
 
BILAC, Olavo.Via-Láctea – XIII (1888), no livro “Antologia: poesias”. São Paulo: Martin Claret, 2002. p. 37-55: Via-Láctea. (Coleção a obra-prima de cada autor).

IMAGEM : eu e Olavo editado no power Point

 


 
Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 16/12/2018
Código do texto: T6528751
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 55 anos
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