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Estudando o falatório

“A franqueza não consiste em dizer tudo o que se pensa,
mas em pensar tudo o que se diz."
Victor Hugo

 

Existem pessoas que falam muito. Falam dos outros, do tempo, da novela, de si mesmos...

Falam qualquer coisa que vem na cabeça.

Pensando melhor, nem diria que falam o que vem na cabeça, porque entendo como “cabeça” certa parte do nosso corpo, acima do pescoço e abaixo do teto, que contêm, em sua parte interna frontal, um espaço delimitado, estudado por neurofisiologistas, com a função específica do raciocínio lógico.

E, analisando algumas falas, podemos arriscar o palpite que a boca que proferiu tal idéia não deve ter a mínima ligação com o lobo frontal. Parece que a ligação é, apenas, coronariana.

 'A boca fala do que está cheio o coração', afirmou Jesus.

Pura verdade.

E isso é empiricamente observável. Quer testar?

Pergunte para um sovina se ele te empresta dinheiro; diga ao orgulhoso que ele é a pessoa mais inteligente que você conhece e que gostaria de homenageá-lo, em público; fale mal de alguém para um maledicente inveterado.

O primeiro muito provavelmente te dirá um ‘não’.

Esse ‘não’ poderá ser implícito - colocado ao meio de palavras adocicadas, tais como: 'Infelizmente estou sem dinheiro neste mês, uma pena, pois gosto tanto de você...’, mas não deixará de ser uma negativa aos teus apelos.

O segundo, acredito eu, responderá um ‘sim’. Ele poderá vir disfarçado de um ‘sim, mas eu nem mereço isso – tem gente melhor que eu...’ ou apenas um ‘sim, obrigado!’,  seguido de um abraço apertado e largo sorriso, claro.

No terceiro caso, prepare seus ouvidos. Esta pessoa acabou de receber o combustível necessário para continuar tacando pedras no outro por longo período. E olha que tem fofoqueiros que fazem 13 horas com 1 minuto de comentário. Impressionante o desempenho.

Outro dia parei para escutar o falatório de uma senhorinha, muito baixinha, na fila do banco. Era quinto dia útil e a fila estava longa, repleta de idosos.

Junto dela, com olhar enfadado e braços cruzados, estava uma outra mulher que parecia ser sua filha. Vez ou outra a jovem acompanhante abanava a cabeça, consentindo, para, em seguida erguer os olhos como que a implorar para Deus um milagre.

O milagre do silêncio ou o da eficiência bancária, certamente.

Mas nada acontecia. A velhinha continuava a falar, sem dar trégua.

Reclamou do sol, do pó, da fila, da nora, do genro, do governo, do funcionário do banco, do cachorro e, claro, da falta de dinheiro.

Dava para perceber nitidamente que ela nem se dava conta do quanto estava sendo desagradável. Falava, falava, falava...

Uma verdadeira química oral verborrágica: aquela senhora conseguiu transformar uma coisa chata (a fila do banco) em algo quase insuportável.

Talvez o que falte para estas pessoas é o que costumo chamar de ‘estudo aprofundado do falatório’.

Falam porque estão sob a influência de suas tendências, mas passam a vida sem se darem conta da natureza delas.

Pensar no que se diz é ir fundo. Filosofar sobre as próprias palavras, buscar lá nas entranhas do ser as questões que movem certas respostas, certas atitudes.

É estudar os próprios sentimentos que despertam a vontade e que produzem tantos efeitos - funestos ou construtivos.

Isso me faz lembrar Santo Agostinho, o sábio bispo argeliano:

"E os homens se vão a contemplar os topos das montanhas,
as vastas ondas do mar,
as amplas correntes dos rios,
a imensidão do oceano,
o curso dos astros,
e não pensam em si mesmos..."

Conseguimos fotografar Marte, mas ainda não demos jeito na conturbada relação em família.

Descobrimos os códigos genéticos, mas não descortinamos nossos defeitos.

O exterior nos deslumbra, o interior nos atemoriza.

E continuamos a falar sem pensar.

Palavras ásperas, verbos envenenados, difamação irresponsável – facetas de uma mesma causa.

A psiconeuroimunologia – um novo ramo da medicina - aponta para o problema das mágoas represadas, da inveja, do egoísmo, enfim, de todos os sentimentos negativos  como sendo o gatilho para muitas doenças que acometem o ser humano.

Um pouco de reflexão e perceberíamos, invariavelmente, que a falta de interiorização é um exercício prático de burrice.

Vale lembrar que sentimentos negligenciados nunca poderão ser extirpados.

Como botar pra fora de nós algo que nem sabemos que existe?

*
Na entrada de um grande templo, em Delphos, estava escrito: ‘Conhece-te a ti mesmo’.

E para nos conhecermos, nada melhor que uma boa cirurgia emocional, capaz de religar três componentes extremamente importantes de nós mesmos: boca, raciocínio e coração.

Claudia Gelernter
Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 15/09/2007
Código do texto: T653413
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 49 anos
37 textos (19467 leituras)
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Claudia Gelernter