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Filé Mignon ou Coxão duro?

"Contratempos são como facas, que nos servem ou nos cortam,
conforme as pegamos pelo cabo ou pela lâmina."
James Russell Lowell

                                                   
Costumo dizer que a vida pode ser comparada a uma grande frigideira, cheia de óleo quente, acondicionada sobre o fogo.

A panela é o mundo  - pronto para receber os ingredientes necessários para o prato principal.

O óleo, aquecido pelas chamas, são os problemas, as dores, as desilusões – comuns a todos os que nascem neste planeta chamado Terra.

Afinal, me responda francamente: - Não tem dias em que nos sentimos como sendo “fritos” em azeite fervendo? Pois é.

Bem por este motivo é que também comparo pessoas a pedaços de carne, prontos para serem passados na tal frigideira da vida. Isso porque não temos como escapar deste processo difícil. Se não pularmos no óleo quente dos dramas humanos nunca conseguiremos estar realmente prontos para um viver com sabedoria, com a maturidade necessária. E por falar em carnes, vale lembrar que diferentes pedaços do boi recebem nomes  específicos:

Na parte superior temos aquela ‘corcunda’ que costumamos chamar de cupim; na parte central superior temos a capa de filé; lá na traseira temos o lagarto, e por aí vai...

Assim como existe uma nomenclatura para cada pedaço, segundo as suas características, entre os seres humanos percebo que existem as pessoas mignon e as pessoas coxão duro.

Isso mesmo.

Você já fritou um pedaço de coxão duro no óleo quente?

Tente.

A carne fica tão dura, tão 'esturricada' que nem a faca consegue cortá-la com eficácia. Dá tanto trabalho para ser recortada que a mão dói, a faca escapa, o garfo escorrega....isso sem comentar que precisamos perder um bom tempo para conseguir mastigar um pequenino pedaço. O maxilar termina dolorido e ainda poderemos engasgar, cuspindo-a de volta, no prato.

Um mico.

Já o mignon é tenro - poucos instantes de fritura e já está todo se derretendo...

Pessoa mignon é aquela que, quando sob os efeitos das dificuldades e dores da existência, torna-se macia, interessante e totalmente aproveitável.

É a que todos convidam para as festas, pois seu humor é contagiante, seu papo é produtivo, seu sorriso é verdadeiro.

Todos desejam passar os últimos anos de suas vidas com uma pessoa assim – alguém que entenda o ser humano mais profundamente, que se delicia com as pequenas coisas e que valoriza muito mais o ser do que o ter.

Já a pessoa coxão duro enrijece, endurece e é difícil de digerir, porque as dores geraram revoltas e reclames. Está sempre na defensiva.

Passa pela vida frigideira e de lá sai  pior do que quando entrou: os problemas foram vistos como fatalidades –  como montanhas intransponíveis. Culpam o mundo, como se ele fosse o grande algoz, enquanto que a pessoa mignon acredita que é nele que encontra a melhor das ferramentas para o seu crescimento interior.

Pessoa mignon se derrete pelas crianças, pelos velhos, pelos necessitados. Sua sensibilidade vai muito além de suas próprias necessidades, pois sente uma alegria imensa em ajudar, em ouvir, em acolher.

 Já a criatura coxão duro acha tudo um tédio. Crianças são um saco e só servem para dar trabalho; velhos são gagás e nada produtivos; pessoas carentes são vagabundas, e por aí vai.

Uma é positiva e cheia de sabor.
A outra possui nervos duros e implacáveis.

A frigideira da vida está pronta para receber todos os tipos de alimentos. Duros ou moles; nutritivos ou venenosos.

Ela cumpre com o seu papel, doando-nos as possibilidades de nos aprimorarmos, de evoluirmos para algo realmente bom.

A nós, diferentemente dos alimentos, cabe uma decisão.

Como queremos ser? Interessantes, como um tenro pedaço de filé mignon, ou intragáveis, como um pedaço de coxão duro?

 

Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 17/09/2007
Código do texto: T656220
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 49 anos
37 textos (19472 leituras)
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Claudia Gelernter