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COMÉ QUE FICA MEU PREJUÍZO?

- Me dá um misto frio e um pingado.
Encostados no balcão de uma lanchonete da rodoferroviária de Curitiba, Dionísio e Abreu tomam o costumeiro café da manhã. Trabalham na redondeza e divertem-se ouvindo trechos de conversas de pessoas desconhecidas que passam pela estação. Quando elas partem, eles continuam o diálogo que ouviram, colocando-o no contexto de suas próprias vidas.
O viajante que pediu o misto frio, dá uma mordida no sanduíche, mastiga, faz uma expressão de quem está experimentando um sabor inesperado e olha intrigado para o lanche. Toma um gole do pingado, dá uma abocanhada maior, mastiga, mastiga, franze a testa, morde de novo, engole e olha interrogativo para sanduíche esperando uma explicação. Repete isso várias vezes, até restar somente um terço do pão.
- Moça, não tem queijo aqui nesse misto!
A garçonete pega o resto do sanduíche que sobrou na mão dele, abre-o e constata que não tem queijo. Mostra para as outras moças. Cochicha no ouvido da amiga, dizendo que talvez o sujeito já tenha comido todo o queijo. Uma delas cheira o sanduíche e confirma que não tem cheiro de queijo. A outra sugere dar uma fatia de queijo para o freguês ficar quieto.
- Não quero uma fatia de queijo. Eu pedi um misto: pão, presunto e queijo.
A moça, tentando evitar discussões constrangedoras, lhe oferece mais um misto frio.
- Não quero outro. Quero esse que paguei. Comé que fica meu prejuízo!
Sem saber mais o que fazer, a garçonete chama o gerente e explica a situação. Ele propõe restituir em dinheiro o valor da fatia de queijo. O passageiro com expressão de descontentamento fala: - Não quero desconto, já perdi a fome. Quero saber comé que fica meu prejuízo!
O gerente tentando acalmar o cidadão propõe devolver todo o dinheiro que ele pagara pelo sanduíche.
- Não quero restituição. Não quero dinheiro! Você não entende? Você não pode me restituir o que nunca teve. Você não pode fazer nada. Nada! COMÉ QUE FICA MEU PREJUÍZO!
Dionísio e Abreu retiraram-se calados. A pergunta do passageiro martelava em suas mentes.
Como é que fica meu prejuízo? Quem vai nos restituir o apetite depois de enganada a fome? Como preencher a ausência daquilo que nunca existiu? Como explicar a frustração de algo que nem aconteceu? A quem explicar? Por que explicar? Como cobrar uma dívida de alguém que nem sabe que é devedor? Como consolar quem passou dois terços da vida esperando encontrar a “fatia de queijo”, que existiu? Como ressarcir o tempo, o gosto, a vontade, o prazer? Quem vai nos restituir a vida que tínhamos direito de viver? Quem? Comé que fica meu prejuízo? COMÉ QUE FICA MEU PREJUÍZO? VOCÊ NÃO ENTENDE? VOCÊ NÃO ENTENDE?
(por Marilda Confortin)
Marilda Confortin
Enviado por Marilda Confortin em 17/09/2007
Código do texto: T656833

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Sobre a autora
Marilda Confortin
Curitiba - Paraná - Brasil
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Marilda Confortin