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Boca de sino
 
Depois da ressaca do dia de ontem, hoje levantei a todo vapor, olhei para parede e o relógio marcava 07:35 horas. Assim que terminei de tomar o café, logo em seguida fui recolher o lixo e colocar na lixeira. Aff quanta bagunça, o lixo do vizinho estava todo revirado na rua, com certeza isso foi obra dos cachorros ou dos urubus, o caminhão ainda não tinha passado, aproveitei minha disposição, peguei uma enxada e uma vassoura e fui organizar toda aquela bagunça, já que estava com a mão na massa, varri também a calçada e a rua. Para fechar com chave de ouro a faxina, logo após o caminhão passou e recolheu todo o lixo que estava na lixeira.
Hum que gostoso! Sensação de dever comprido. Já que o corpo estava suado e aquecido, decidi então fazer minha corridinha habitual, retornando aproveitei que a maré estava bem baixa, estirei ali na praia, e olhando para o céu, comecei a pensar sobre qual assunto poderia escrever, e não demorou muito tempo ele apareceu.
Vejo que hoje em dia está muito na moda a expressão “Bullying”. É bullying pra lá, é bullying pra cá. Apesar de todo esse modismo, isso é algo que tem acontecido desde gerações passadas, mas somente agora na atualidade, que a sociedade e autoridades resolveram encarar essa prática como crime.
Esse termo que está em voga atualmente, nada mais é que atos de violência física ou psicológica intencionais e repetidas, praticadas por um ou mais indivíduos causando angústia, dor, tristeza e medo, numa relação desigual de poder. Geralmente aqueles que se dizem mais fortes, oprimem pessoas que são consideradas mais fracas.
Segundo a Wikipédia esse termo foi proposto pelo pesquisador sueco Dan Olweus em 1999, logo após o Massacre de Columbine, nos Estados Unidos da América.
Realmente é algo muito desagradável, eu também já tive essa experiência na pele, são situações que ficam marcadas para sempre. Lembro como se fosse hoje, era o ano de 1973, eu cursava o quarto ano primário, na Universidade do Trabalho, nessa época eu morava no Bairro Universitário, a professora era dona Alice, uma pessoa muito simpática, que mais tarde coincidentemente, passou a ser amiga da minha mãe.
Tudo era muito bom, poder assistir as aulas da dona Alice, relacionar com os colegas de classe, as brincadeiras na hora do recreio. Todavia algo era muito incômodo e me entristecia, porque naquela sala havia um emissário do Tinhoso, seu nome era Davi, um sujeito mal e perverso, essa figura enquanto estudou naquela classe, resolveu me aporrinhar e fazia de tudo para espezinhar-me.
Como se tudo isso não bastasse, resolveu colocar um apelido em mim, cujo epíteto era Boca de sino. Toda hora que a professora me pedia para ler algum texto, ou estava perto de pessoas diferentes, lá vinha o filho do Tinhoso dizendo: Fala Boca de sino. Dessa forma era Boca de sino pra lá e boca de sino pra cá, não adiantou nem o pedido da professora, que pediu a ele que me chamasse pelo meu nome, o sujeito era excomungado, que raiva, que ódio eu tinha dele. Minha vontade era de dar uma surra nele, mas como, além de mais velho, eram também mais forte, o jeito foi aceitar essa humilhação, enquanto convivesse com ele. O seu irmão chamava Moisés, era totalmente o oposto dele.
Os anos passaram, mudamos para outros bairros, contudo um belo dia, já homem formado, encontrei face a face com o Davi, agora ele parecia franzino e baixo. Veio em minha mente todo o filme da humilhação que ele me fez passar, agora eu poderia ir à forra, porém nada disso iria apagar o sofrimento que tive no passado, e também devemos pagar o Mal com o Bem.
Sendo assim, novamente eu morei no mesmo bairro do Davi, por longos anos, no entanto agora mais leve, liberto do fardo da humilhação. Várias vezes tive oportunidade de deparar-me com ele, só que agora o via não como filho do Tinhoso e sim como uma pessoa normal e assim ficou no passado o Boca de sino.
 
 
 
 

 
Simplesmente Gilson
Enviado por Simplesmente Gilson em 20/03/2019
Código do texto: T6602873
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Sobre o autor
Simplesmente Gilson
Mucuri - Bahia - Brasil, 56 anos
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