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Napoleão: O Imperador do Senandes

   


                        O que faz  aqui o  exilado de Santa Helena?  Será que é isso mesmo? Vejam só: Napoleão está  na Praça Tamandaré, centro da antiga e histórica Cidade do Rio Grande,  confins do Rio Grande do Sul, contemplando a urbe, congelado em  clássica  pose. Calma: não se trata de nenhum delírio. Falo apenas de uma  estátua que lá está e que é uma homenagem ao corso. Nunca consegui descobrir o motivo do tal monumento lá estar , nem quem foi o artista que o moldou. O interesse que tenho pela estátua se deve á  lembranças, lembranças da minha  infância... E quando eu era criança, o Napoleão era muito importante para mim. Pois é.... Entre Rio Grande e a Praia do Cassino, ficava a estátua do Bonaparte, quase que no meio do caminho entre os dois lugares. Era uma espécie de marco que assinalava o estar chegando á praia ou o seu abandono depois de um domingo de verão. Lá estava o Imperador.... impassível, com a mão escondida e assistindo ao vai – e - vem dos veranistas. Na minha fantasia de menino, a  estátua emprestava ares de mistério ao lugar. O que fazia ali o personagem histórico? Nunca cheguei perto o suficiente para tocá-lo: apenas o olhava de longe,  sempre respeitosamente e de relance, acompanhando-o com os olhos até que se perdesse na próxima curva da estradinha do Cassino. A honra de ser o primeiro á ver o Napoleão  era  muito pela gurizada e o vencedor sentia-se um privilegiado. Até hoje não sei porque o Imperador foi retirado do Senandes e levado para o centro histórico da cidade. Foi como se  daquilo que vivi na infância  tivesse sido removido e o encanto,  quebrado... Não tem muita graça para as crianças da  minha geração  que o Napoleão fique entre patos e marrecos, no centro da cidade, suportando o barulho de carros, ônibus e  de gente apressada, que mal o vê... O  lugar do Imperador é e sempre será no bucolismo quase rural e ainda misterioso do Senandes, tendo a  importante missão de fazer com que as crianças de todas as idades  continuem a  brincar de descobri-lo. Um amigo que  já se foi, me disse um dia durante uma das suas costumeiras brumas alcoólicas, que pensava  um dia liderar um movimento revolucionário pela volta do Napoleão ao seu lugar de origem, pois achava uma sacanagem o que tinham feito. Não viveu para ver. Acho que ele tinha razão: O lugar do conquistador é naquela curva do Senandes, meio que escondido entre  eucaliptos e  curvas do caminho entre a praia e a cidade e não em Santa Helena, Paris e muito menos onde se encontra agora,solitário guardião da Praça Tamandaré.  Tenho certeza de que todos aqueles que como eu, viveram estes encontros com o Napoleão, que só podem ser sentidos com alma de criança,  concordam comigo. Acredito que o Bonaparte, apesar da têmpera de conquistador, iria gostar de voltar as origens. Como um guri crescido que sempre fui, tenho o direito de sonhar e lembrar. Tenho a convicção de que o sonho não é só meu, mas pertence  também á todos aqueles que foram crianças algum dia na antiga Rio Grande de São Pedro. Tivemos que crescer, mas ainda procuramos esperançosamente o Napoleão naquela curva da estrada... Quem sabe hoje eu seja o primeiro á vê-lo...
LCRivera
Enviado por LCRivera em 23/09/2007
Reeditado em 27/06/2015
Código do texto: T665447
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
LCRivera
Santana do Livramento - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
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