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Contagem Regressiva

 

            È proibido bater abaixo da cintura.

            Soa o gongo e os boxeadores, em corpos suados, luvas de couro, bermudas coloridas, olhar de morte, se entregam à inútil troca de socos.

            A multidão vibra, aplaude, delira. Retorno aos tempos romanos e vejo o Imperador – pode ser qualquer um – girar para baixo o dedo polegar. Um gladiador caído recebe do oponente o golpe final e a cabeça separa-se do corpo.

            Canso-me de Roma e vou ao Egito. O faraó persegue alguns judeus. Cerca-os no deserto e o exército os massacra. O líder, talvez Moisés, escapa com um grupo por outro caminho. Dividir o povo e permitir que um grupo escapasse enquanto outro fosse sacrificado, foi a única forma de fuga possível. A abertura do mar foi uma alegoria, transmitida de geração após geração - não se suportaria a verdade.

            Testemunho a construção da Grande Muralha. Vejo a Horda de Mongóis, tal como gafanhotos, superar as paredes, fazendo curvas, driblando o esforço chinês.

            Adianto meu relógio do tempo e testemunho os japoneses na Segunda Guerra massacrando inocentes e civis. Não foi diferente na Alemanha e queria ter feito algo a respeito dos campos de concentração. Em vão.

            Procuro os cientistas, os pintores, acompanhar Mozart no momento da criação. Minhalma fica um pouco mais leve. Sim, há glórias, muitas glórias. A humanidade também fez o bem.

            Caminho ao lado de Gandhi, vejo os milagres de Jesus, ouço os ensinamentos de Buda. Falta pouco, muito pouco e em prol da humanidade devo entregar meu relatório. Quem sabe mais mil anos de oportunidade?

            Antes de mim o demônio faz a sua exposição e mostra as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki, os aviões contras as torres gêmeas e uma mãe afogando o filho em vaso sanitário.

            Eu apresento a minha defesa, perfilo as conquistas, a filosofia, a literatura, os exemplos sublimes de caridade e caio de joelhos suplicando por mais mil anos.

            O Criador permite mais 100 anos. De qualquer forma é um alento.

            O demônio sai esbravejando: chorar foi golpe baixo!

            Retorno à arena. Um dos boxeadores desfere um soco abaixo da linha da cintura. Cem anos é pouco, muito pouco...

Jurandir Araguaia
Enviado por Jurandir Araguaia em 24/09/2007
Código do texto: T665977
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jurandir Araguaia
Goiânia - Goiás - Brasil
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Jurandir Araguaia