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Os escoteiros

                                    Os escoteiros


Num mundo onde a caridade se extingue, a bondade é questionada (interrogada), e por vezes, acusada de invadir a privacidade alheia, nossos heróis, sempre alerta para auxiliar o próximo, vão trilhando as veredas íngremes do altruísmo.
Amigos desde a infância, Marcos, João e Beto, ingressaram cedo no escotismo, instituição filantrópica que vinha de encontro com seus anseios cristãos mais profundos.
Neste mundo onde o interesse pessoal vem em primeiro lugar, palavras como: caridade, bondade e respeito, são pouco pronunciadas, e ainda menos praticadas.
O contemporâneo havia mudado as pessoas, e por sua vez, as pessoas mudavam a sociedade. Na história a seguir, vocês irão entender as dificuldades que nossos intrépidos escoteiros têm enfrentado.




        História 1: Marcos pimentinha, no sinal.


Marcos levantou todo animado para fazer sua boa ação diária. Andando por São Paulo, parou num cruzamento muito movimentado, pronto para ajudar o pedestre mais necessitado que Deus pusesse em seu caminho.
Não demorou muito para avistar uma velhinha que se aproximava da faixa de pedestre. Comprimentou-a.
-Bom dia, minha cara senhora!
A velhinha olhou de soslaio e não retribuiu o comprimento, pensando: o que ele quis dizer com esse cara senhora, esse rapazote deve achar que eu sou uma velha inútil, incapaz de atravessar uma rua. E esse negócio de cara... Ele nem me conhece! Que rapaz atrevido, será que está pensando que eu sou cara ao Estado, ou que eu tenho muito dinheiro? Pode ser um ladrão disfarçado!
Marcos pensava: “Deus ajuda quem cedo madruga”, vou somar logo cedo mais uma boa ação à minha listinha.
Logo que o sinal abriu, Marcos todo voluntarioso e entusiasmado, pegou no braço da velhinha. A senhora tomou um susto, e sacou de dentro da bolsa ligeiramente aberta, aonde sua mão repousava, um “expray” de pimenta e sapecou-o nas vistas de nosso frustrado herói. Com os olhos em chamas e confuso, começou a correr trombando nos transeuntes e pedindo água. A velhinha, com fôlego impressionante, perseguia-o desferindo bolsadas na sua cabeça e gritando: pega ladrão, pega ladrão.
Resumindo: Marcos foi parar no hospital intoxicado pela Malagueta , e depois teve que prestar contas na delegacia, juntamente com o chefe dos escoteiros, o Sr. Antônio, e seus pais.
Mesmo vindo a saber que o jovem era escoteiro, e que não tinha nenhuma passagem pela polícia, Dona Maria, irredutível, não quis retirar as queixas de: desrespeito ao direito de ir e vir, privação da sua liberdade de atravessar uma via pública, quando, e como ela quisesse, e sem a ajuda de terceiros, e ainda, um processo por calúnia e difamação, mais danos morais, por causa do “cara senhora”. Até tentativa de seqüestro a velhinha queria imputar-lhe. No final das contas, depois de dirigir inúteis súplicas e desculpas à Dona Maria, Marcos foi sentenciado a reembolsar o “expray” de pimenta da Dona Maria, e a pagar 10 cestas básicas para uma instituição voltada ao atendimento de acidentados de trânsito.
Voltando para casa, Marcos, rancoroso e desanimado, pensava: Em vez de Deus por uma pessoa necessitada no meu caminho, colocou essa velha neurótica e traumatizada, eu pensei que Ele estivesse sempre alerta.
Evandro Gastaldo
Enviado por Evandro Gastaldo em 26/09/2007
Código do texto: T668858

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Sobre o autor
Evandro Gastaldo
Cerquilho - São Paulo - Brasil, 47 anos
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