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Trânsito




Quer um tema que me tira do sério? Achou. Ou melhor, ACHEI! Coloque um cachorro latindo embaixo de minha janela todo santo dia na madrugada, mas, por favor, não me deixe enfrentar sequer dez metros de “encheção” nas avenidas. Sim! “Encheção”, que vem do latim “enchere” (vai encher) e “eção” (a tua mãe). Sem contar a falta de educação latente do povo motorizado brasileiro que, até quando você apenas ultrapassa (pela direita, pois no Brasil é tudo às avessas mesmo) você recebe um xingamento! Mas acho que não sou o único a padecer desse mal. Afinal de contas, o mundo inteiro sofre dessa maldade que é o congestionamento. Poderia agora me prolongar em mil e uma teorias que me ocorrem dentro do carro quando me encontro em total lentidão veicular, como a “teoria da velhinha que não sabe engatar a primeira” ou “a conspiração dos semáforos”, mas sei que são apenas delírios meus e não carece de atenção aqui.

É notória a incapacidade dos motoristas de fazer o trânsito fluir. Cada um estaciona onde quer, pára onde bem convier e anda na velocidade que quiser. Outro dia desses estava indo a uma reunião (após as 18:00, Santo Cristo, ninguém precisa passar por isso depois de um dia inteiro de labuta) em uma rua muito movimentada de Recife. Já saio toda vez com o coração na boca por conta dos “lavadores de vidro” que, sem pedir licença, nem perdão (grande Toquinho), jogam aquele líquido fedido no vidro e começam a limpar o que não estava sujo, na maioria das vezes. Mas o coração na boca até ajuda nessas horas porque trava o que dá vontade de gritar para eles (e alivia um possível retorno. Lembram daquela: Para toda ação tem uma reação? Pois é!). Mas, continuando o relato, em todo o canto do planeta, tirando as áreas agrícolas porque não há (pelo menos nunca vi) congestionamento de trator, a hora do “rush” é um momento sagrado em nosso dia. No entanto, há um grande defeito nessa expressão. “Rush”, em bom inglês, significa “correr”, “apressar”. Certo? Certo! Agora me diga o santo Benedito: QUEM É QUE CONSEGUE CORRER NESSE HORÁRIO? O moleque que passou a mão no seu relógio enquanto você estava parado atrás de “trocentos” e dez carros? Só se for, né? Porque, eu mesmo, não saio do canto por nada nesse mundo e ainda tenho que escutar uma sinfonia desvairada de buzinas de todos os tipos. Até uma bicicleta já buzinou ao meu lado me pregando um baita susto.

Bom, mas sem me distanciar do assunto, continuei a minha peregrinação na avenida, e todos vocês devem conhecer um cara bem legal que todo dia está presente em nossas vidas. Ele é estrangeiro e, como todo bom norte-americano, nós detestamos. Sua graça é “MURPH” e antes fosse o Eddie, porque assim ainda daríamos algumas risadas com seus filmes. Esse “Murph” é um carinha que lançou ao mundo a sua lei de que: TUDO DÁ ERRADO! E realmente dá. A fila do meu lado anda mais rápido? Claro que vou passar para ela. Passei! A fila parou e a que eu estava começou a movimentar mais do que a que agora estou. Vamos voltar então? Voltei! A fila parou novamente. “Por... Murph! Larga do meu pé!”

Tudo bem! Ufa! Consegui passar aquela etapa. O carro estava “voando baixo” a quase 30 Km/h e estava muito feliz. Agora só tinha que virar a esquerda para entrar na rua onde seria feita a reunião. Como todo bom motorista, coloquei a seta e fiz menção de que ia entrar. É nessa parte que entra a outra praga do trânsito: O motoboy! Acho que eles devem ser treinados nas auto-escolas por discípulos do Mister M. Até porque não consigo achar nenhuma outra explicação para o surgimento repentino desses. Você olha pelo retrovisor, olha o ponto cego, não vê nada e vira, quem aparece? O motoboy! Do nada o rapaz surgiu, me fez frear bruscamente para não matá-lo, até porque com a velocidade que ele vinha ( percebam que falei ELE. Meu carro continuava a correr seus 30 Km/h) se pegasse na lateral, ia parecer um superman indo atrás de um assaltante de velhinhas! E, para piorar a situação, depois de ter salvo a vida do rapaz de uma possível colisão, ele ainda saiu esbravejando palavras de guerra que sobraram até para a coitada da minha querida mamãe que deveria estar em casa assistindo sossegada a sua novelinha. O coração na boca me ajudou mais uma vez a não retornar o elogio feito a minha família, mas não segurou o palavrão que soltei quando o carro que vinha atrás “cheirou” a minha traseira (minha não, a do carro). Tudo bem, sem estragos. Vamos para a reunião porque estou começando a ficar atrasado.

Um pouco mais a frente, descobri o motivo de tanto engarrafamento: Um ônibus tinha fechado um fusquinha (vejam que acidente digno de filme hollywoodiano, igualzinho!) e estavam esperando o DETRAN para resolver de quem era a culpa. E eu, tentando achar uma desculpa melhor para dar ao meu cliente. Afinal, o único que não tinha culpa ali era ele. Mas, ok! Consegui passar, por entre mortos e feridos, muito bem obrigado e já estava próximo ao local da reunião, que seria feita em um restaurante.

-E agora, meu Deus? Onde vou parar essa porcaria?

No mesmo instante, vi um carro saindo e abrindo uma vaga. Pensei comigo mesmo que seria a sorte que estaria começando a mudar para o meu lado. Pobre iludido sou. Liguei a seta e apontei o bico para onde estava a vaga, mas cometi o pecado de querer “aparecer demais” (como uma amiga minha sempre diz) e estacionar o carro de ré. Quando me preparei para engatar a marcha e voltar para o local, uma senhora bem distinta em seu automóvel entrou antes de mim. E quando pensei em reclamar o meu direito à vaga, do outro lado surgiu um senhor muito bem educado e muito bem treinado com anabolizantes para cavalo e bois. Achei, não sei porque, melhor deixar isso para lá. “É apenas uma vaga”, pensei.

Bom, mas como tinha reunião marcada para as 19:00 e já eram 19:40, resolvi pagar a um manobrista para ele guardar o meu carro, apesar de não gostar de deixar com eles pois nunca sei o que podem aprontar com o meu precioso carrinho, e corri para dentro do restaurante. Assim que entrei, estiquei o pescoço para ver se via o cliente em alguma mesa, depois dei uma volta por dentro do mesmo e não o encontrei em mesa alguma.

–Droga! – pensei – Ele já deve ter ido embora, que mancada! Garçom, traz o cardápio que pelo menos eu não vou ficar com fome depois de uma batalha dessas que acabei de travar.

–Pois não, senhor! Um momento só.

E enquanto esperava o cardápio, vi um senhor muito parecido com o qual ia me encontrar chegando pela porta do estabelecimento. - “Não pode ser ele.”

-Thiago?
-Olá, Sr. Jorge. Tudo bem?
-Tudo sim, me perdoe a demora. É que o trânsito está infernal hoje.
-Não se preocupe! Nem vi a hora passar enquanto esperava o senhor!
Thiago di Freitas
Enviado por Thiago di Freitas em 26/09/2007
Reeditado em 07/10/2007
Código do texto: T669670

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Sobre o autor
Thiago di Freitas
Recife - Pernambuco - Brasil
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Thiago di Freitas