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Você é louco ou idiota?

Em Fortaleza, quando chove, todos são pegos desprevenidos. Isto é, ninguém tem a cultura do guarda-chuva por aqui. Chove em um período muito restrito do ano. Então, todo início de ano, acontece de chover e milhares de pessoas estarem pelas ruas sem capa ou sem uma sombrinha sequer. Numa das manhãs de fevereiro inventou de chover. No centro da cidade ficou aquele aperreio. Aquele corre-corre sem tamanho. Gente chegando nos pontos de ônibus. Gente descendo dos ônibus lotados. Aquela chuva forte, típica da estação. E o povo correndo de um lado para o outro. (Aproveitando os recursos da linguagem escrita, informo que os fatos narrados a partir de agora acontecem no intervalo de 6,43 segundos).  Várias pessoas desceram de um coletivo e seguiam correndo em direção ao ponto de ônibus mais próximo, que por sinal já estava bem lotado de pessoas que tentavam a todo custo, escapar daquela chuva repentina. Outro tanto de pessoas seguiam na direção contrária a das primeiras e já buscavam entrar em um microônibus que, parando poucos metros antes do local indicado na placa de sinalização do referido ponto, forçou os passageiros a molharem-se. Tudo bem. Três pessoas pularam por sobre uma volumosa poça de lama, bem junto à calçada. Uma delas acabou esbarrando em uma mulher aparentemente bastante apressada. Vestida naqueles típicos terninhos pseudo-executivos-liquidação-eu-queria-mesmo, de uma cor totalmente avessa a moda (roxo), ela realmente não reparou que se continuasse naquele curso iria acabar esbarrando num senhor gordo, que tentou saltar aquela poça que descrevi, mas que na verdade só conseguiu projetar seu corpo por 43,56 cm, pisando com toda vontade na água. Os inúmeros respingos acabaram por atingir um sem número de pessoas. Mas o mais importante é que a mulher de terninho, desequilibrada pelo esbarrão foi de encontro a um homem bem vestido e bem molhado que aparentemente estava parado no meio da calçada. – Você é louco ou idiota? – Ela gritou! Logo que esbarrou no sujeito plantado no meio do tempo. – Você deve ser idiota mesmo! – Aqueles berros chamaram a atenção de todos, que passaram a reparar melhor aquela cena. O homem já estava virando na direção dela. – Fica feito idiota parado no meio da calçada!– Neste exato momento, o homem virou-se para ela. Todos aguardavam ansiosos como ele iria reagir. - Parece que é cego!? – Ela ainda atiçou mais. – É... Eu sou cego mesmo! – E ele era cego mesmo. Todos nós percebemos. – Aquelas quase cinqüenta pessoas que estavam na parada, olharam com tanta “força” para a mulher (envergonhadíssima), que não tenho dúvidas de que ela pegou o primeiro ônibus que passou, sem nem saber para onde ia.
Lauriston Trindade
Enviado por Lauriston Trindade em 26/09/2007
Reeditado em 04/11/2007
Código do texto: T670080

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Sobre o autor
Lauriston Trindade
Fortaleza - Ceará - Brasil, 39 anos
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Lauriston Trindade